Deu Zebra

Ainda não há uma tradição de webséries no Brasil, nem no mundo. O formato vem sendo descoberto, aos poucos, com uma ou outra série pipocando aqui e ali. Caso você não seja uma das cinquenta mil pessoas que já viram Lado Nix, corra pra ver! Não é porque eu estou nela, e nem porque foi dirigida por um grande amigo. JURO!

Lado Nix é pioneira em linguagem e formato. Cheia de referências de cinema e games, aposta num humor que tira sarro de si mesmo, com piadas tão rápidas quanto os cortes da montagem – que picota planos fechados em deliciosos episódios de 6 minutos. Viva o formato websérie! Parabéns ao Paulão (Mavu) e a toda a equipe da Mambo Jack pela iniciativa ousada, corajosa e criativa!

Bom. Conheci o Paulão nos idos de 2001. Ele trabalhava com sapatos. E eu não trabalhava com nada. Eu tinha 17, 18 anos e estava no primeiro ano da faculdade. Ele já tinha uns 26 e entrava nas salas de aula para fazer campanha para a nova chapa do Centro Acadêmico. Era engraçado. Por ser um pouco mais velho que a pivetada, ele fingia que era o professor e dava 15 minutos de uma aula absurda. Aí ele revelava que era aluno e dizia para votarem na chapa Zebra.

Um dia, ficamos amigos. Coincidências do destino. Eu estava louca por um emprego meio período, e ele era o novo presidente do Centro Acadêmico da faculdade. Fui contratada. Minha função era ajudar os alunos a imprimir coisas, pregar cartazes, vender convites de festas, grampear as coisas que eles tinham impresso e desligar o ar condicionado no fim da noite.

Não vou mencionar os strippers, as velas e os anões que o Paulão contratava para dançar a conga em pleno Centro Acadêmico, porque isso não vem ao caso. E ele não teria como responder publicamente aos meus comentários. Mas fato é que a gente se divertiu horrores nessa época, em festas que tinham shows do Rodney Di, Gretchen e Bozo.

Os anos se passaram e nós mantivemos uma média de duas ligações por ano, nos respectivos aniversários. Ele vendeu as lojas de sapato e abriu uma produtora, a Zebra, que depois mudou de nome. Eu fui trabalhar em TV e fui engolida pelo sistema (#not). Na real, sempre senti que o Paulete estava por perto. A cada realização profissional minha, ele ligava para me dar força e dizer que era meu primeiro fã. Dez anos atrás, numa viagem pra Floripa, ele disse: “eu sei que você vai ser famosa. me dá um autógrafo”.

Na verdade, a fã sou eu. Inexplicavelmente, eu queria ser amiga desse cara desde a primeira vez que eu o vi fazendo um discurso que mais parecia um stand up comedy. Essa websérie me enche de orgulho porque é mais uma idéia maravilhosamente improvável e absurda que se concretiza. Assim como a chapa Zebra, o show do Bozo, e os sapatos que viraram câmeras. Alguém que tem coragem, organização e cara de pau de concretizar idéias absurdas (nesse país!) tem todo o meu respeito e fascínio.

Paulete, I love you. Conte comigo sempre. Parabéns e obrigada. Você é foda. Eu sabia que ia dar Zebra!


Budapeste

Entre Buda e Peste tem um rio. Ele é largo e cheio de água. Barcos pairam entre pessoas que percorrem sua margem de bicicleta, de carro, andando. Sem a pressa de quem tem Wi-fi. De um lado, a parte antiga – de outro – a mais antiga ainda. Budapeste parou no tempo de alguma forma. Meninas vestidas de onça e sandálias transparentes denunciam que Madonna é a última referência estética para elas. Assim como o Rambo é para eles. Notas de Spice Girls vazam das boates. Que ano é esse? Quase esqueço. Parece que não anoitece nunca. Estou cansada de pedalar e buscar minha própria presença que me escapa como um peixe escorregadio.

O Danúbio não é azul. Nem um pouco azul. É escuro – entre o marrom e o preto – e corre rápido. Deve ter sido azul um dia. Na complexidade da equação entre velocidade e mundo, ele esqueceu de sua cor. Diluído em velozes correntes, um comunismo distante, um bombardeio ainda mais distante. Hoje é verão, é lua nova, é hora de começar de novo. Quem consegue levanta a mão. O Danúbio continua tentando.

Sinto que uma transformação está próxima. Sinto meu corpo se adaptando ao novo. A vida é inteligente. A própria vida em si já sabe o que fazer – E a gente pensando que tem controle sobre as coisas. Basta respirar.

Eu me renovo a cada momento.


Desenhos

2009

1993

Flamingos. 2009.

1991

2009


Páscoa – você sabe o que está por trás disso tudo?

Originalmente postado em 09/04/2009

A páscoa é uma data muitíssimo comemorada no Brasil e no Ocidente inteiro. Quem não se lembra de procurar ovinhos pela casa num randômico domingo de manhã? Domingo que aparentemente não tem data certa para ser, simplesmente acontece na sequência de um feriado prolongado no qual ninguém vai para a escola, todo mundo pega trânsito e substitui carne por chocolate. Pegadas de coelho feitas com talco no carpete, vovós e vovôs espalhados e misturados com seus netos de boca melecada e muito papel celofane compõem um cenário anual que levei anos para entender o significado.

Sempre fiquei um pouco confusa com esse carnaval que a páscoa é. Uma mistureba de simbologias e costumes, uma sucessão de enganos na minha cabeça então infantil que tentou entender a coisa literalmente por tanto tempo.

Confusão n. 1: coelho não bota ovo. Percebi esse engano logo quando aprendi a diferença entre mamíferos e répteis. Se não estou enganada, os coelhos não têm sangue frio, nem escamas e também não fazem ninhos. Aí descobri que o ovo era para simbolizar a fertilidade. Por que mesmo?

Confusão n.2: Ah, sim, porque Cristo ressuscitou na páscoa! Então o ovo nos faz lembrar de nascimento. Jesus também não nasceu de um ovo (apesar de ele ter tido um ninho), mas o importante aqui é a simbologia que representa a vitória da vida sobre a morte. Ah, ok. Mas vem cá…

Confusão n.3: Se Jesus ressuscitou num belo dia, por que raios ninguém marcou num calendário para que isso pudesse ser comemorado nos próximos dois mil anos sem ninguém ficar confuso? Quero dizer, alguém anotou quando ele nasceu, não? Alguém por acaso tem dúvida de quando é o Natal? Então por que ninguém anotou quando ele ressurgiu? Enfim, recentemente descobri como saber quando a páscoa vai ser:

Confusão n.4: A páscoa acontece no primeiro domingo depois da primeira lua cheia que segue a entrada do sol em áries. Áries é o primeiro signo, e a páscoa nos fala sobre uma nova vida, um renascimento, um novo ciclo. Pode-se considerar também o fim do inverno e o começo da primavera, a vida que brota (no hemisfério norte). Sacou?

Confusão n.5- As músicas. Por que ninguém coloca o plural ao cantar

“Coelhinho da páscoa, que trazer pra mim?

Um ovo, dois OVO, três OVO…”

Enfim, acabei descobrindo que Páscoa vem do hebreu Pesach, que quer dizer passagem. É uma das celebrações mais antigas da civilização ocidental e teve origem bem antes de Cristo. Os historiadores dizem que o maior significado que ela trás é de esperança e de vida nova.

Então eu desejo a todos uma ótima vida nova!

BOA PASCUA (?)

Confusão n.6:


E o Rio de Janeiro continua…

 

Quente. Lindo. Cheio de taxis amarelos e um cheiro estranho que nunca vai embora. Também continua cheio de gente que reclama do trânsito sem ter a marginal Tetê como referência. Cheio de gente alegre e restaurantes bons espalhados pela cidade. Cheio de barcos parados, boiando, esperando o dia passar lento, enquanto um avião se exibe  entre eles e uma pedra enorme que deve ter saído da terra durante algum terremoto, num dia distante de hoje. O Rio de Janeiro continua no verão enquanto São Paulo não. Parece outro hemisfério. Parece outra língua. Hoje o Cristo parece escocês, está de saia. Talves seja uma canga. Talvez hoje ele desça para dar um mergulho. Ia ser divertido ver o Cristo descendo. Um lance meio King Kong. Eu tiraria uma foto. Que nem essa que tirei hoje de manhã, com o novo efeitinho mágico do meu iphone. Cada coisa que inventam – a gente chega na era digital para voltar para trás e fingir que tira foto com negativo e acha incrível. Eu acho incrível. E o Cristo está sendo reformado para os gringos acharem ele lindo. E eu vou dar um rolê porque tá sol lá fora! Beijuis génte!


Lua Cheia e Sincronias

Apesar de a lua estar nova, hoje foi quarta-feira, por isso resolvi postar esse texto que eu gosto e que faz tempo que escrevi.

Originalmente postado em 14/05/2009 – 13:28

De noite

Um jazz e um gato. Isso é jazz? Acho difícil saber. Não tenho certeza, mas ao mesmo tempo, sei que isso é um gato. Pelo menos sei distinguir os animais. Isso é um gato charmoso e carente e isso é um chá cítrico. Ainda bem que não tem gripe felina, nem gripe tangerina. Hoje é quarta-feira e muitas pessoas comeram feijoada. A gripe fica na carne do porco cozido? Isso pode não ser a pergunta mais elaborada que sou capaz de fazer no fim deste dia normal de lua cheia. A lua reflete a luz do sol que está lá do outro lado do planeta, assim como uma parte de mim reflete a luz da minha própria consciência que brilha escondida em algum lugar, ao longe. É lá que tento chegar, começando com uma pergunta prozaica sobre porco ou com um raciocínio simples do tipo “isso é jazz ou não?” “isso é gato ou não?”. É preciso cavar. Gosto de não me contentar com o primeiro pensamento. Ele é só a superfície. Se a vida fosse fácil, não tinha que cavar para achar ouro, petróleo e múmias.

De Tarde

Coincidência? Sincronicidade? Esse termo eu tento entender, mas acho bastante complicado. O Jung realmente não sabia escrever para as massas, hein. Acho que na verdade ele não queria escrever para a torcida do Palmeiras, nem para os administradores de empresa interessados na natureza humana ou muito menos para a galera que mora na Lapa. São conceitos super possíveis de serem compreendidos `a partir da própria experiência, mas ele escreve tão difícil que parece que só as pessoas pós-graduadas em Harvard passam por isso. E não é verdade. As pessoas comuns também são capazes de compreender do que se trata a sincronicidade.

Então hoje pela tarde eu tive aula de interpretação, mas no caminho passei pela Av. Doutor Arnaldo e pensei que o apocalipse estava acontecendo. Pensei que se fosse tão lindo quanto aquilo, morreríamos todos fascinados pelos faiscantes e letais brilhos prateados que caiam do céu aos montes. Mas não era o fim do mundo, eram apenas papéis-espelho picados de uma confraternização na Igreja, o que no fundo me deixou aliviada.

Na aula falamos muito sobre cores e chakras e sobre permanecer consigo mesmo, conectado internamente. Parecia piada porque era exatamente o assunto do rádio hoje pela manhã.

De Manhã

Não tenho o hábito de ligar o rádio. Muito menos de sintonizar qualquer estação diferente das três gravadas no meu dial. Mas nesta manhã me arrisquei nas ondas da FM. Me senti perdida no Hawaii, só que sem gastar dinheiro. Tomei alguns caldos até conseguir dropar uma voz feminina desconhecida que se manteve no ar por mais de quarenta minutos falando sobre cores e charkas. Pouco ouvi sobre este assunto em mídias de massa, quanto mais no rádio. Alguém que tentava democratizar o conhecimento da ligação entre o físico, o emocional e o espiritual invadiu a minha manhã e me deixou feliz. Ela ensinava a meditar e dizia que cada um faz do seu jeito. O sinal fechado e eu ouvindo. Pessoas ligavam para tirar dúvidas. Ela falava sobre Yoga enquanto alguém buzinava atrás de mim. Não posso esquecer de comprar ovos – pensei enquanto agradecia por tudo e ouvia meu celular tocar. Hoje começou cedo. Que assim seja. Tenho um longo dia pela frente.


Sábado, vizinhos e fumaça

Originalmente postado em 02/08/2009 – 01:42

Deveria ser proibido. Aliás, fora da Holanda, é proibido. Nada contra a coisa em si, mas pensei que o andar estava em chamas quando desci do elevador. Vizinhos novos. O hall deve ter uns 10 metros quadrados, e eu não conseguia ver a porta do meu apartamento por conta dessa fumaça com cheiro doce. Decidi não reclamar desta vez. Não porque eu esteja de bom humor, mas porque fui repreendida.

– Você tem 90 anos ou o que? Deixe as pessoas se divertirem, é sábado `a noite!

Ele não estava se referindo apenas ao ritual transcendental hippie dos vizinhos da frente, mas também `a putar… quero dizer, ao churrasco que a outra facção de vizinhos arranca-cabelos fazia lá embaixo. Moro no quinto andar. O problema é que o som reverbera através do gigantesco vale da Pompéia e retorna oitocentas vezes mais alto em direção `as janelas dos pobres anciãos de 90 anos como eu.

Alguma coisa estava sendo comemorada ao som mais variado DO MUNDO: Victor e Leo, The Killers, AC/DC e Tom Jobim. Sem brincadeira, esse é um fragmento original do playlist da tchurma. Talvez seja um aniversário de quadrigêmeos quadrivitelinos que não têm absolutamente nada a ver um com o outro (inclusive nas amizades, pois essa quantidade de pessoas, se empilhadas, chegariam ao topo do prédio).

Ele precisa comprar um terno. Estamos voltando do shopping center da mesma forma que australoptecus famintos voltam de uma perigosa e frustrada caçada por mamutes selvagens. Um shopping sábado a tarde em São Paulo é como uma savana lotada de hienas. Creio que somos hienas-light, pois apesar de termos entrado em absolutamente todas as lojas de ternos, não compramos nada. Ele não gostou de nenhum.

Casamentos em geral têm peculiaridades e restrições. Nos Estados Unidos, isso é ainda mais forte. Principalmente com o padrinho principal: o melhor homem (!). Não bastasse o terno ter de ser de cor clara, ele cismou que quer um azul-claro. Acho que vou ligar para o James Bond. Não para ele resolver o problema, mas para ele emprestar um! Ou o Snoop Dogg, o Jay-Z, esses rappers tem ternos de várias cores. Ok, mais fácil achar um mico-leão.

Enquanto ele procura um terno no e-bay, eu aceito o fato de que já decorei a letra do Victor e Leo. É a quarta vez que está tocando e pior: na verdade percebo que fico frustrada quando cortam a música bem na hora do refrão. Eu já estava fazendo parte daquela baderna quando alguém finalmente desligou o som. Talvez outra velhinha do prédio tenha reclamado. Quem será que foi? A única que eu conhecia faleceu anteontem. Tem um aviso no elevador. Pobrezinha. De qualquer forma, espero que seja ela quem jogue os ovos pela janela, assim isso nunca mais vai acontecer. Cansei daquela meleca no térreo.

Nunca fiquei tão feliz com o fim de uma festa. Mas agora preciso pensar na outra: na festa do terno azul-claro. Jurei para mim que vou achar, na internet. Ele escolhe um filme. Tem Polanski, Buñuel e Billy Wilder.

– Escolhe um que eu já vi, por favor, porque vou passar as próximas horas no e-bay- falei.

Chegou a pizza. O prédio está em silêncio. A fumaça baixou. Agora sim.