Consciência Pesada

Eles têm uma copeira latina que usa uniforme. A mesa de centro é de vidro, então cada vez que eu apoio o copo faz um certo barulho, o que denuncia meu estado alcoólico. Damn it, preciso ir devagar. É a minha primeira vez em Los Angeles, mas pelo que entendi a “parte alta” – alta mesmo, na montanha – é onde moram as estrelas. Keanu Reeves é o vizinho. O anfitrião deve viver dos direitos autorais da conhecida série de TV que escreveu no fim dos anos 70. Depois que seu parceiro e melhor amigo faleceu, vinte anos atrás, não lançou nenhuma obra inédita. 

Sete da noite. Vinho branco. Não posso tomar muito porque embebedo em dois segundos e preciso conseguir conversar em inglês. Entender as perguntas que ele vai me fazer sobre como encontrei o texto e por que eu e meus parceiros queremos montá-lo no Brasil. Eu sou apenas uma pirralha beirando os 30 que se meteu a comprar os direitos de uma peça, tento deixar isso claro. É muita informação, então vou bebendo bem devagar enquanto vou comendo os quitutes colocados sobre a tal da mesa de centro da ampla sala bem decorada. Não sei muito bem como fui parar ali, mas entendo que ela, a esposa, já foi para São Paulo, não sei bem em que ocasião, pois ela falou rápido demais e eu estou tentando responder `as outras perguntas, feitas pela sobrinha dela, que é agente dele. Somos quatro personagens. Cinco, contando com o cachorro que amou minha meia-calça. Seis, com a moça latina que entra em cena de vez em quando para servir mais alguma coisa, até se despedir `as oito horas. 

A esposa olha para ele com uma ternura profunda que eu gostaria de alcançar um dia. Ele se apoia numa bengala. Ela tem a voz rouca. Ele escuta com dificuldade.

Ela é atriz. Era óbvio, desde a hora em que entrei no carro. Ela foi me buscar no hotel para que eu conhecesse seu marido. Vê-la dirigir e falar já é incrível. Tem gente que nasceu pra ser visto. Ela tem um brilho generoso, que faz o outro lembrar que tem o mesmo brilho, em algum lugar da Alma.

– Gostaria de ver você no palco – eu disse.

– Aqui ninguém escreve para mulheres da minha idade. E quando escrevem, a Jane Fonda é quem faz. Então… 

Estamos rindo enquanto ele conta sobre o dia em que não aceitou a proposta de um jovem diretor que queria dirigir um de seus roteiros. Ele se chamava Steve Spielberg. Depois mudou para Steven. Ele diz que se arrepende amargamente e que nunca se deve negligenciar alguém por ser jovem e inexperiente. Consciência pesada. Ela assiste contemplativa ao nosso diálogo entusiasmado. Me parece que os olhos dele hoje brilham um pouquinho mais que o normal. Ela confirma que minha impressão está correta tocando de leve seus joelhos com a ponta dos dedos. Os mesmos olhos turvam ao falar do melhor amigo. Uma pausa. Eles são americanos e resolvem mudar de assunto rápido. 

– Esse papel é de uma grande responsabilidade – ele diz, se referindo ao papel do protagonista da peça.

– Vou avisar o ator – respondo, ainda sentindo o vácuo do assunto anterior, o melhor amigo.

Explico que gostei do texto porque me lembra Hitchcock e sou fã de tramas de suspense. Soa como se eu tivesse feito uma pesquisa enorme. Mas a verdade é que tive sorte e confiei nas críticas que li sobre a peça na internet. Random. O nome me atraiu: Consciência Pesada. Puro entretenimento, sem grandes pretensões. 

– Hitchcock estava enorme de gordo quando fomos almoçar. Mal conseguia sentar na cadeira. 

– Uau – não sei o que comentar

– Alguém sugeriu que gravássemos a conversa. Não achei ético. Ele nos deu uma consultoria uma vez, sobre um roteiro que tínhamos escrito. Todas as anotações eram de Alma, sua esposa. Alma era o grande cérebro. Ele nunca deu a ela nenhum crédito.

– Sempre uma grande mulher por trás de um homem, ah? 

Eu não deveria ter dito isso, porque isso talvez seja um segredo em certas relações e ela me olha agora como se eu tivesse revelado uma parte da trama que deveria ter ficado oculta. Talvez eu pudesse ter feito um trocadilho: “sempre uma grande alma por trás de um homem”, ou algo assim, soaria mais engraçado pelo menos. Sou brasileira, então mudo de assunto muito rápido.

– Conhece filmes brasileiros?

Ele adora Central do Brasil. Digo que fiz uma pontinha num filme do Walter Salles e que ele é um lord. Ele volta a falar de Hitchcock:

– Ele me deu uma dica que nunca esqueci: um roteiro só suporta uma coincidência. Mais que uma, e o público não confia mais na sua história.

A coincidência dessa história foi eu ter topado com esse texto e vindo parar aqui – penso. 

Ele me mostra seu escritório, seus prêmios e livros. Parece orgulhoso. Ela vem atrás. A sobrinha olha no relógio. Diz que vai me levar de volta para o hotel. 

Agradeço imensamente, e digo que amanhã entrego o dinheiro dos direitos. Eu trouxe o dinheiro num envelope. Ela ri e finalmente entende que sou uma pirralha metidinha, não exatamente Steve.

No carro, a sobrinha é quem me agradece, como se eu tivesse feito um grande favor. Disse que eu tive muita sorte em encontrá-la, afinal ele não é representado por nenhuma grande agência de autores há duas décadas, desde de que parou de escrever. Será que são duas coincidências na mesma história? Não. Acho que são duas histórias. Uma é essa. A outra estará em algum palco, em breve. 

(Se você, AMADO EMPRESÁRIO ou ALMA LINDA do marketing de uma empresa INCRÍVEL DE LEGAL, que patrocina teatro pela Lei Rouanet ou Proac, VAI AMAR ESSA PEÇA, tenho certeza. Entre em contato aqui, vamos teclar, que eu te conto tudo. Beijos, te amo muito).


Fé é algo a ser exercitado.

Concluí a frase antes mesmo de refletir sobre ela, e por isso mesmo, acredito que esteja certa para mim. Veio da barriga a certeza. Para alguns, ela nasce com a gente: não se questiona a vibração acima da cabeça. Ela nos conecta ao invisível, concretíssimo, tão concreto quanto o mundo físico. Para outros, a carga religiosa da palavra gera uma série de fragmentações mentais, julgamentos, desconfianças e raciocínios lógicos que justamente por estarem presos `a mente (ego), não se abrem para perceberem a gigantesca diferença entre religião e espiritualidade. 

E daí?

Estou tomando um chá um pouco sem gosto.

E estou com sono.

 Vi dois filmes recentemente que me fizeram pensar sobre qual é o real (e útil) significado da fé.

Um deles leva a fé no sentido religioso. O outro, no sentido espiritual. 

A Árvore da Vida, de Terence Malick, fala sobre a relação de poder entre um pai e um filho, a perda de um ser amado e o desejo de perdão e redenção. Mostra também dinossauros, chamas queimando, versículos bíblicos e muitas imagens legais estilo documentários da BBC. Da hora. Mas o fundamento da história me preocupa um pouco. Malick nasceu no Texas, nos anos 40. Seus filmes costumam trazer uma forte carga religiosa. Religiosa no sentido institucional mesmo.

As mensagens são várias, desde “até os ‘bons’ sofrem”, “o importante é o amor”, até “perdoe”, etc. Todas elas ilustradas imageticamente de uma forma bem simples de entender (tipo negros e brancos dando as mãos, mães ruivas e lindas com vestidos esvoaçantes e pessoas se reencontrando na praia).

O maniqueísmo religioso conduz logicamente ao seguinte raciocínio: se eu sou bom, eu mereço. Se eu fizer o bem, eu serei salvo. E assim, promove mais e mais a repressão da sombra, ao invés da aceitação (e integração) dela.

Ninguém é inteiramente bom, nem inteiramente ruim, certo? A bondade da mulher ruiva (Jessica Chastain) no filme é utópica e idealizada. Todo mundo tem dentro de si potencial de desenvolver a luz e a sombra, e quanto antes a gente aceitar a condição humana, melhor. Momentos de instabilidade geram medo, e logo, precisamos nos agarrar a alguma certeza. Os Estados Unidos, com tanta crise séria, se vê caindo, desestabilizando junto com essas certezas frágeis. A necessidade de ser “perdoado” aparece no incosciente coletivo. Aí, um filme bem emocional para todo mundo se sentir acolhido e perdoado vira hit. Afinal, fomos “bons” e fizemos o “bem” a vida inteira, certo? Não é justo sofrermos! Segundo essas regras, não. É que infelizmente elas não são reais. Para o senhor Malick, difícil lidar com isso aos 70 anos, eu imagino.

 É por um caminho mais concreto que se desenha a fé representada em Melancolia, de Lars Von Trier.

É um pássaro? É um avião? Não, é um planeta, fudeeeeu!

Claire (Charlotte Gainsbourg) vive um casamento desses estruturados em muitas coisas materiais, filho, propriedade, etc. Ela canaliza sua ansiedade organizando coisas. Está sempre pensando no futuro ou no passado. Justine (Kirsten Dunst) parece que vai seguir o mesmo caminho, não fosse por uma capacidade especial de “prever” coisas. Na noite de seu casamento ela vê um planeta diferente no céu e entende que tudo vai acabar. Antes que tudo acabe, ela acaba com tudo: seu casamento, suas relações, sua vontade de viver, e entra em depressão. Porém, aos poucos, Justine vai se reconstruindo, encarando a verdade que está por vir. Verdade esta que Claire e seu marido não conseguem aceitar. Justine passa o filme inteiro se estruturando para morrer, e faz o que pode para lidar com a verdade. Claire não consegue aceitar a verdade e na hora da morte está totalmente sem estrutura. Para Lars Von Trier, a fé está ligada `a conexão com a sua própria verdade.

 Engraçado. A vida só dá duas certezas pra gente.

 1)    A gente vai morrer.

2)    TUDO é transitório. A alegria passa. A tristeza também passa. Até a uva passa.

E essas únicas certezas não são lá muito reconfortantes, néam? Então não é melhor viver de acordo com as próprias verdades e responsabilidades em vez de cobrar alguém pela sua recompensa? Recompensa? Se você faz o que quer, o que gosta, a recompensa é aqui e agora. Deixa Deus em paz, pôam. 

 

Beijos ❤

@LuMicheletti

 

PS – Para quem for ao cinema em busca das referências arquetípicas da “árvore da vida” que a cabala faz, pode tirar o cavalinho da chuva, porque não tem nem cheiro.

 


Budapeste

Entre Buda e Peste tem um rio. Ele é largo e cheio de água. Barcos pairam entre pessoas que percorrem sua margem de bicicleta, de carro, andando. Sem a pressa de quem tem Wi-fi. De um lado, a parte antiga – de outro – a mais antiga ainda. Budapeste parou no tempo de alguma forma. Meninas vestidas de onça e sandálias transparentes denunciam que Madonna é a última referência estética para elas. Assim como o Rambo é para eles. Notas de Spice Girls vazam das boates. Que ano é esse? Quase esqueço. Parece que não anoitece nunca. Estou cansada de pedalar e buscar minha própria presença que me escapa como um peixe escorregadio.

O Danúbio não é azul. Nem um pouco azul. É escuro – entre o marrom e o preto – e corre rápido. Deve ter sido azul um dia. Na complexidade da equação entre velocidade e mundo, ele esqueceu de sua cor. Diluído em velozes correntes, um comunismo distante, um bombardeio ainda mais distante. Hoje é verão, é lua nova, é hora de começar de novo. Quem consegue levanta a mão. O Danúbio continua tentando.

Sinto que uma transformação está próxima. Sinto meu corpo se adaptando ao novo. A vida é inteligente. A própria vida em si já sabe o que fazer – E a gente pensando que tem controle sobre as coisas. Basta respirar.

Eu me renovo a cada momento.


O Mundo em Fatias


Depois da ponte tem um mundo fatiado. Antes da ponte, também.

Na paisagem mais famosa do mundo, diferentes raças e credos andam em paralelo. Linhas paralelas não se encontram, separam universos.

Essa é a capital do mundo vertical. Mundo pontudo e fálico, de silhuetas prontas para invadir. Prédios em forma de mísseis, ângulos de 90 graus, mentes rigidamente atadas a convenções.

Mentes calcificadas se enganam com o tempo.

O tempo tem ponto de fuga. Anda cada vez mais rápido, em progressão geométrica.

O tempo em rede permite que se mude o presente no presente. A horizontalidade do tempo é só uma idéia fixa.

Este mundo existiu primeiro na mente.

Mudar uma só mente é mais fácil do que mudar o mundo inteiro.

É mais realista. É mais possível, e mais honesto.

Ainda dá tempo.

Fotos: @LuMicheletti

Brooklin Bridge, NY agosto / 09.


Meu Nome

Originalmente postado em 27/01/2009 – 10:08

Quando pequena, achava que não era nome de criança. Queria me chamar Adriana ou Camila. Não consegui convencer meus pais. Não fazia sentido mudar o nome de uma criança já taludinha. Aquilo me dava desespero. Não me conformava com a falta de opção. Se eu não gostasse da roupa, trocava. Como não pode trocar o nome? E ainda por cima, ele não desbota como a roupa. Tem que usar para sempre, sem experimentar, sem ver se combina. Não me parecia muito justo.


Hoje carrego meu nome em pelo menos sete pedaços de plástico que fazem peso em minha carteira. Dos importantes – como o RG, a carteira de habilitação e o cartão de crédito – aos menos imprescindíveis: carteirinhas de locadora de vídeo, cartões-fidelidade de farmácia, de companhia aérea, de livrarias.

Meu primeiro nome aparece todos os dias por alguns segundos na TV, sempre que eu começo um programa. E no final também, para indicar as marcas das roupas que usei.

Antes disso, passei anos ouvindo meu nome todos os dias de manhã cedo durante a chamada no colégio. Ainda com sono, escrevia a alcunha no cabeçalho das provas e, `a tarde, das lições de casa. Com seis anos, aprendi a escrevê-lo inteiro. Aos nove, errei na hora de assinar o passaporte. Hoje, ainda com medo de errar, assino cheques e contratos com as mesmas letras. Letras que preciso soletrar a cada novo encontro para que não errem mais uma vez. E sempre erram. Eu mesma erro, já me acostumei. Um nome impossível de ser escrito “de ouvido” dá mais trabalho. Por que fui cair com um nome difícil de escrever? Por que eu não me chamo Maria da Silva? Se minha personalidade fosse mais simples, o nome também seria?

Meu nome anda na boca dos que não o trocam por um apelido: amigos menos íntimos, pessoas próximas quando estão bravas comigo, recepcionistas, secretárias, colegas de trabalho e garçons com lista de espera na mão. 
Ouvi meu nome passando fugaz por muitos vocativos triviais. Incontáveis vezes, mas que não ocupam muito espaço na memória. Das poucas ocasiões em que foi dito com a cautela de quem vai dar uma notícia ruim, ou de quem espera ansioso por uma resposta, me lembro bem.

Talvez já tenha sido apagado da agenda de telefones daquela amiga antiga e dissolvido pela maré alta que invadiu a areia onde o escrevi semana passada. No peito do ex-namorado arrependido deve ter sido coberto por algum desenho maior ou substituído por outro nome. Em cimentos frescos e muros que pixei quando era moleca, ainda está por baixo da tinta branca, ou quem sabe, misturado com outros nomes agora.

Me lembro também de quando a ausência do nome doeu: na lista dos aprovados pela universidade pública, nos créditos de um filme que não incluiu minhas cenas e no testamento da minha avó milionária. Ah, essa última é mentira. Ela me incluiu no testamento. Mentira de novo, não tem avó milionária.

Meu nome foi escrito pela primeira vez na certidão de nascimento e será pela última em alguma lápide. Ou será que já existia antes, na cabeça de alguém que sonhava com um nome sem dono? Por onde será que meu nome vai ficar por mais tempo? Talvez ele vire nome de rua ou alameda depois que eu morrer e descobrirem que na verdade inventei alguma coisa muito importante para a humanidade, escondida dentro do meu quarto. Talvez não.

Não me lembro da primeira vez que ouvi meu nome. Também não me lembro da última. Mas me lembro de várias entre as duas: o mesmo som, que por convenção foi associado a mim, proferido por uma gama interminável de tons e intenções. O nome que dá nome a mim é o mesmo que ainda hoje soletro devagar quando estou sozinha. Sussurro como um mantra que ecoa sozinho. E continuo repetindo, mil vezes ao longo da vida, só para ver se um dia consigo finalmente me acostumar com ele. E comigo.


Velocidade Relativa

Originalmente postado em 28/12/2008 – 14:47

O mundo está rápido demais.

Mas a gente só percebe a alta velocidade quando pára de andar rápido com ele.

Me lembrei de uma aula de física que tive no colégio. Como eu tinha dificuldade em física! Impressionante. As dificuldades nos atraem para aquilo que temos de desenvolver e lapidar em nós mesmos. Talvez por isso eu ainda insista em raciocinar e em criar paralelos entre fórmulas e a vida cotidiana. Regrinhas, leis e códigos que não faziam o menor sentido fora de um contexto educacional que eu achava um saco, mas que por alguma razão, ainda permanecem grudadas por baixo das explicações que eu tento dar para as coisas.

Entonces, depois de dez anos sem ter a menor necessidade de lembrar da fórmula da velocidade relativa, eis que ela surge saltitando serelepe ao redor da minha cabeça. Fui conferir para ver se ela existia mesmo. Era ela. Maldita. Me aparece sorrindo depois de onze anos foragida do meu campo consciente, como se nada fosse. Poderia ter vindo antes, não? De repente naquela prova de recuperação? Ou antes disso, assim eu não teria ficado de recuperação. Nem teria de escrevê-la debaixo da capinha da borracha.

VR = VA – VB.

Nunca pensei que fosse lembrar disso.

Demorei muito para entender esse conceito, mas hoje me parece simples. Na escola, o exemplo era assim: se um carro anda a 20km/h e você patina do lado dele a 10km/h, o carro, do seu ponto de vista, anda a 10 km/h.

Quando corremos junto com o mundo, o mundo parece lento, a aí queremos correr mais e mais. Na verdade todo mundo está correndo tão rápido e ao mesmo tempo, que perdemos a referência e achamos que estamos todos parados. E de repente acontece um surto, uma estafa, um cansaço coletivo e ninguém entende nada.

Hoje sentei na poltrona amarela que fica na sala. Amarela-limão. A poltrona que nunca me recebe porque nunca tenho tempo para ela. Ou para mim. Estou sempre apostando corrida com o mundo, que parece estar parado do meu lado. A poltrona também parece estar parada. Mas não está. Ela está envelhecendo, tomando poeira, sendo arranhada por dois gatos e aspirada duas vezes por semana. Nem a poltrona-limão está parada. Estamos envelhecendo juntas. A diferença é que ela se dá conta disso e eu não. Ela me observa andando de um lado para outro da casa, começando duzentas coisas ao mesmo tempo e concluindo poucas delas.

Hoje diminuí a velocidade e tentei ser John Malkovich com a poltrona amarela. Me transformei nela e fiquei me observando correndo e inundando o apartamento de pensamentos tão densos e velozes que deixavam os gatos loucos. Pensamentos sólidos como bolas de tênis quicando pelo chão e paredes, quebrando os vidros das janelas. Audíveis como palavras, mas palavras sem som. Zumbidos embaralhados que sempre me despertam sussurrando no meio da noite querendo concluir o que não foi concluido ao longo do dia. Me assisti rabiscando minha própria vida com brilhantes e efêmeras luzes de neon. Passei por mim como faróis vermelhos passam por um motorista imprudente. Semáforos cansados de tanta indiferença, que um dia resolvem não fornecer mais a mesma sorte de outros cruzamentos. Desta vez anunciam uma catástrofe nos próximos segundos. O motorista, apavorado pelo susto e pela iminência da morte  – tão veloz quanto seu carro – freia num pavor abrupto. Só assim ele volta para si. Com o coração na boca, desperta assustado em sua própria poltrona e respira. Desperta de um pesadelo praticamente real.

Diminuir a velocidade evita acidentes. Não podemos diminuir o tempo do mundo, mas podemos diminuir a nossa própria velocidade conscientemente.

Conversar com mais calma, observar o céu, uma flor ou uma poltrona amarela. Respirar mais profundamente, espreguiçar e bocejar mais vezes. Olhar mais nos olhos, amar mais, e principalmente: ouvir.

Aproveite as férias para perceber o seu próprio ritmo. Estou tentando fazer isso. Não me confundir com o mundo e evitar acidentes!


Páscoa – você sabe o que está por trás disso tudo?

Originalmente postado em 09/04/2009

A páscoa é uma data muitíssimo comemorada no Brasil e no Ocidente inteiro. Quem não se lembra de procurar ovinhos pela casa num randômico domingo de manhã? Domingo que aparentemente não tem data certa para ser, simplesmente acontece na sequência de um feriado prolongado no qual ninguém vai para a escola, todo mundo pega trânsito e substitui carne por chocolate. Pegadas de coelho feitas com talco no carpete, vovós e vovôs espalhados e misturados com seus netos de boca melecada e muito papel celofane compõem um cenário anual que levei anos para entender o significado.

Sempre fiquei um pouco confusa com esse carnaval que a páscoa é. Uma mistureba de simbologias e costumes, uma sucessão de enganos na minha cabeça então infantil que tentou entender a coisa literalmente por tanto tempo.

Confusão n. 1: coelho não bota ovo. Percebi esse engano logo quando aprendi a diferença entre mamíferos e répteis. Se não estou enganada, os coelhos não têm sangue frio, nem escamas e também não fazem ninhos. Aí descobri que o ovo era para simbolizar a fertilidade. Por que mesmo?

Confusão n.2: Ah, sim, porque Cristo ressuscitou na páscoa! Então o ovo nos faz lembrar de nascimento. Jesus também não nasceu de um ovo (apesar de ele ter tido um ninho), mas o importante aqui é a simbologia que representa a vitória da vida sobre a morte. Ah, ok. Mas vem cá…

Confusão n.3: Se Jesus ressuscitou num belo dia, por que raios ninguém marcou num calendário para que isso pudesse ser comemorado nos próximos dois mil anos sem ninguém ficar confuso? Quero dizer, alguém anotou quando ele nasceu, não? Alguém por acaso tem dúvida de quando é o Natal? Então por que ninguém anotou quando ele ressurgiu? Enfim, recentemente descobri como saber quando a páscoa vai ser:

Confusão n.4: A páscoa acontece no primeiro domingo depois da primeira lua cheia que segue a entrada do sol em áries. Áries é o primeiro signo, e a páscoa nos fala sobre uma nova vida, um renascimento, um novo ciclo. Pode-se considerar também o fim do inverno e o começo da primavera, a vida que brota (no hemisfério norte). Sacou?

Confusão n.5- As músicas. Por que ninguém coloca o plural ao cantar

“Coelhinho da páscoa, que trazer pra mim?

Um ovo, dois OVO, três OVO…”

Enfim, acabei descobrindo que Páscoa vem do hebreu Pesach, que quer dizer passagem. É uma das celebrações mais antigas da civilização ocidental e teve origem bem antes de Cristo. Os historiadores dizem que o maior significado que ela trás é de esperança e de vida nova.

Então eu desejo a todos uma ótima vida nova!

BOA PASCUA (?)

Confusão n.6: