Fotosenhos recentes


Anúncios

Fé é algo a ser exercitado.

Concluí a frase antes mesmo de refletir sobre ela, e por isso mesmo, acredito que esteja certa para mim. Veio da barriga a certeza. Para alguns, ela nasce com a gente: não se questiona a vibração acima da cabeça. Ela nos conecta ao invisível, concretíssimo, tão concreto quanto o mundo físico. Para outros, a carga religiosa da palavra gera uma série de fragmentações mentais, julgamentos, desconfianças e raciocínios lógicos que justamente por estarem presos `a mente (ego), não se abrem para perceberem a gigantesca diferença entre religião e espiritualidade. 

E daí?

Estou tomando um chá um pouco sem gosto.

E estou com sono.

 Vi dois filmes recentemente que me fizeram pensar sobre qual é o real (e útil) significado da fé.

Um deles leva a fé no sentido religioso. O outro, no sentido espiritual. 

A Árvore da Vida, de Terence Malick, fala sobre a relação de poder entre um pai e um filho, a perda de um ser amado e o desejo de perdão e redenção. Mostra também dinossauros, chamas queimando, versículos bíblicos e muitas imagens legais estilo documentários da BBC. Da hora. Mas o fundamento da história me preocupa um pouco. Malick nasceu no Texas, nos anos 40. Seus filmes costumam trazer uma forte carga religiosa. Religiosa no sentido institucional mesmo.

As mensagens são várias, desde “até os ‘bons’ sofrem”, “o importante é o amor”, até “perdoe”, etc. Todas elas ilustradas imageticamente de uma forma bem simples de entender (tipo negros e brancos dando as mãos, mães ruivas e lindas com vestidos esvoaçantes e pessoas se reencontrando na praia).

O maniqueísmo religioso conduz logicamente ao seguinte raciocínio: se eu sou bom, eu mereço. Se eu fizer o bem, eu serei salvo. E assim, promove mais e mais a repressão da sombra, ao invés da aceitação (e integração) dela.

Ninguém é inteiramente bom, nem inteiramente ruim, certo? A bondade da mulher ruiva (Jessica Chastain) no filme é utópica e idealizada. Todo mundo tem dentro de si potencial de desenvolver a luz e a sombra, e quanto antes a gente aceitar a condição humana, melhor. Momentos de instabilidade geram medo, e logo, precisamos nos agarrar a alguma certeza. Os Estados Unidos, com tanta crise séria, se vê caindo, desestabilizando junto com essas certezas frágeis. A necessidade de ser “perdoado” aparece no incosciente coletivo. Aí, um filme bem emocional para todo mundo se sentir acolhido e perdoado vira hit. Afinal, fomos “bons” e fizemos o “bem” a vida inteira, certo? Não é justo sofrermos! Segundo essas regras, não. É que infelizmente elas não são reais. Para o senhor Malick, difícil lidar com isso aos 70 anos, eu imagino.

 É por um caminho mais concreto que se desenha a fé representada em Melancolia, de Lars Von Trier.

É um pássaro? É um avião? Não, é um planeta, fudeeeeu!

Claire (Charlotte Gainsbourg) vive um casamento desses estruturados em muitas coisas materiais, filho, propriedade, etc. Ela canaliza sua ansiedade organizando coisas. Está sempre pensando no futuro ou no passado. Justine (Kirsten Dunst) parece que vai seguir o mesmo caminho, não fosse por uma capacidade especial de “prever” coisas. Na noite de seu casamento ela vê um planeta diferente no céu e entende que tudo vai acabar. Antes que tudo acabe, ela acaba com tudo: seu casamento, suas relações, sua vontade de viver, e entra em depressão. Porém, aos poucos, Justine vai se reconstruindo, encarando a verdade que está por vir. Verdade esta que Claire e seu marido não conseguem aceitar. Justine passa o filme inteiro se estruturando para morrer, e faz o que pode para lidar com a verdade. Claire não consegue aceitar a verdade e na hora da morte está totalmente sem estrutura. Para Lars Von Trier, a fé está ligada `a conexão com a sua própria verdade.

 Engraçado. A vida só dá duas certezas pra gente.

 1)    A gente vai morrer.

2)    TUDO é transitório. A alegria passa. A tristeza também passa. Até a uva passa.

E essas únicas certezas não são lá muito reconfortantes, néam? Então não é melhor viver de acordo com as próprias verdades e responsabilidades em vez de cobrar alguém pela sua recompensa? Recompensa? Se você faz o que quer, o que gosta, a recompensa é aqui e agora. Deixa Deus em paz, pôam. 

 

Beijos ❤

@LuMicheletti

 

PS – Para quem for ao cinema em busca das referências arquetípicas da “árvore da vida” que a cabala faz, pode tirar o cavalinho da chuva, porque não tem nem cheiro.

 


Tempo

Originalmente postado em 21/01/2009

Editado em 10/08/2011

Três semanas antes

Mais uma vez no apartamento de Dea Martins. Desta vez ela não está. Tenho a sensação de que recalco um certo amozinho por esse Rio de Janeiro, que me causa antipatia. Ele não me dá bola. O rio que me leva para janeiro – desesperado pela aproximação do ano de 2009 – parece mais uma corredeira alucinada do que o riachinho que foi antes. Hoje é 30 de dezembro. Quase 31. Estrondos já acontecem lá fora. Todo mundo sorri e agradece a tudo. Agradece ao taxista, ao balconista, `a Iemanjá, ao tempo que melhora, ao raio que o parta. Tem que aproveitar, nem sempre é assim. Quase me esqueço: o que eu estou fazendo aqui, mesmo? Ah, me lembrei. Amanhã chega alguém que eu espero há meses.

Tento conter os fogos de artifício que pipocam em sinapses cerebrais e me concentrar na noite que precisa ser dormida. Se Dea estivesse aqui eu conseguiria expressar melhor o que quero dizer porque ela me inspira horrores. When she is around, as palavras escorrem pela ponta dos dedos e sapateiam sobre as letras do teclado. Mas desta vez, Dea leonina me abandonou e foi para a Lapinha com seus amigos malucos, me deixando uma chave de presente. Mandou eu me divertir, namorar e desligar o computador caso ele venha a ser usado – nessa ordem. Ela fez uma lista. Não apenas: espalhou bilhetinhos pela casa inteira. Parecem lamparinas, porque são amarelos. Amarelos post-it. São mini romances grudados pelas paredes do pequeno apartamento no Bairro Peixoto – o oásis de Copacabana. Me fazem rir. Um dos bilhetinhos ensina a usar o chuveiro. Ela diz: ‘ligue primeiro a quente. Quando o aquecedor começar a funcionar, tempere com a fria. Ou, se neste dia estiver muito calor, nem ligue a quente. Tome banho frio’. I love it.

O porta-retratos caiu de novo. De novo é separado. Insisto em escrever denovo junto porque acho que soa melhor. Minha mãe me corrigiu um dia desses. Voltando: Déa tem uma estante no quarto dela lotada de portas-retrato. Uma estante de instantes. São instantes congelados em molduras antigas, de diferentes cores e épocas. Fotos em preto-e-branco, coloridas, desgastadas, outras novas. Tem fotos nas paredes. Anjos, beijos gays, Paris na chuva. E tem esse porta-retrato que caiu sozinho pela terceira vez esta noite. E não está ventando neste quarto. Obviamente  fiquei com medo de não ser bem-vinda por qualquer entidade oculta que se esconda entre o que vejo e o que imagino.

Estou dando um jeito de entrar em pânico por alguma razão obscura e inexplicável. Assim ela permanence obscura e inexplicável. Mais fácil. O motivo real do meu medo é real demais para uma elaboração pacífica e compassiva que me permita pregar o olho até amanhã de manhã. Prefiro ter medo de coisas impossíveis do que assumir a verdade de certos acontecimentos iminentes que venham a provocar crises doloridas dentro de mim. Transformações reais. Vou continuar fugindo e fingindo mais um pouquinho. Tentando. Adorei minhas feições hoje no espelho. Estou tentando me distrair comigo. Com minha permanente nos cílios, que gracinha. Minhas unhas paris com renda. Qualquer futilidade besta que me distraia do fato de que em três semanas minha vida vai virar do avesso. Ele vai me deixar de novo.

Três Semanas Depois

Hoje Janeiro já chegou, o sol veio e foi umas várias vezes entre coqueiros na praia e prédios na cidade. Agora parece que foi embora de vez. Quando chove assim parece que ele nunca mais vai voltar. Chuva e choro. Ambos começam com ch. Cheiro também. Chegada começa com ch. Mas acho – acho também tem ch – acho que ‘partida’ deveria se chamar ‘chegada’ e vice-versa, seguindo a lógica das lágrimas que vão despencando de cima para baixo fazendo do ch uma onomatopéia perfeita para ilustrar a água que cai: chuá.

Ordinárias três semanas seriam estas não fosse por uma urgência inédita de sentir o ar entrando por absolutamente todos os centésimos de segundo dos meus poros. Isso faz a gente sentir a vida como ela realmente é.

Falei com a Dea uma vez apenas por telefone. Ela odiou a Lapinha. Não tinha nada para fazer. O chão era todo de terra, não tinha luz elétrica e choveu tanto que eles ficaram atolados no barro, fugindo de adolescentes hippies que descobriram que, entre os malucos da turma dela, tinha uma atriz  super famosa que todo mundo conhece. Sob a varanda da casa capenga que eles alugaram, conteciam serenatas para homenagear a atriz durante as madrugadas. Ainda bem que todos são bem humorados e a vida continua.

O ano começou agora, dia 20 de Janeiro. Três semanas atrás eu era a pessoa mais ansiosa do mundo – hoje sou a mais pensativa. A mais ansiosa hoje deve ser o Obama. Três semanas atrás ele deveria ser o mais pensativo. E espero que continue pensando.

Está vazio, quieto. Não digo abandonado porque é da minha própria casa que estou falando. Roupas sujas. A bagunça me olha. Os gatos estão jogados num canto, acostumados `a inconstância das coisas. Nem miam, de tanta preguiça.

Não sei o que vai acontecer e tenho medo. Sinto que uma mudança está próxima. Meu estômago me avisa que nada será como antes. Pergunto ao tarô e ele me devolve a Lua como resposta. É a mesma imagem que o inspirou a pintar e emoldurar um retrato dias atrás. Olho para a parede: sou eu de costas, na praia, com um pincel na mão e uma lua de Van Gogh no céu, como se eu mesma tivesse acabado de pintá-la.

Leio o significado da carta:

“Um tempo de mistério, assombro e terror. Estamos perdidos até para nós mesmos. Na profundeza das águas, um lagostim tem as garras estendidas. Atrevemo-nos a prosseguir? Ou essa monstruosa criatura estenderá as patas a fim de puxar-nos para trás? A lua a todos contempla – em silêncio. A Deusa da Lua na noite terrível é também a dadora de sonhos, a reveladora de mistérios ocultos. É realmente o lagostim nosso inimigo? Ou também luta para chegar `as torres distantes? Uma revelação… o terror se dissolve em assombro. A criatura já não parece ameaçadora. O lagostim oferece o dorso para o nosso passo. É agora ou nunca. Ousemos ou morramos”. (Jung e o Tarô. Nichols, Sallie)

 

Dois anos e meio depois

Não entendo ainda a carta da lua. Tenho medo dela. Cada vez menos medo, na verdade.

A Dea é que vem me visitar agora. Ela vem toda semana para São Paulo. Colhi essa amizade num pântano e ela é uma flor de Lotus para mim.

Ele voltou com malas. Viu o retrato pregado na parede e tentou se sentir em casa. Ganhou uma chave de presente, lavou a louça, cozinhou, roncou, reclamou dos cachorros que latem na vizinhança. Fez isso por um ano. Um dia, foi embora para sempre. Meu estômago doeu muito. Chs despencaram de mim, drenando minha água. Hoje não mais.

Uma transformação realmente ocorreu. E outra, e mais outra. Descobri que elas não acabam. Tenho me distraído menos com a cor do meu esmalte ou a curva dos cílios. Acho que perdi um pouco da capacidade de me enganar. Talvez por isso a carta da Lua não me assuste mais tanto. 

 

 

 

 

 


A Vida dos Outros

Nada a ver com era digital. Queria falar daquele filme alemão mesmo, que ganhou Oscar e Globo de Ouro há alguns anos. Foi dirigido por um cara bem jovem chamado Florian Henckel von Donnersmarck. Na época eu fazia uma peça no teatro Cândido Mendes em Ipanema e aproveitava para pegar a sessão de cinema ali do lado antes do espetáculo. O cineminha fuleiro passava uns filmes nada mainstream e a sessão era vazia. As cadeiras horríveis. Mas o filme me fez voltar ali mais duas vezes na mesma semana.

Pouco depois, um amigo meu psicólogo me contou que tinha sido convidado para escrever uma análise sobre este filme. Me ofereci para ajudar. Escrevi uma pequena análise sobre a interpretação do protagonista Gerd Wiesler (Ulrich Mühe, falecido logo após as filmagens) e mandei para ele. Não sei se o livro / artigo saiu, mas resolvi postar meu texto aqui para quem quiser ler.

É sempre difícil condensar um filme em apenas uma palavra. Porém, curiosamente, os melhores filmes permitem que isso seja feito. Simplesmente porque os roteiristas sabem do que estão falando. E não é possível falar profundamente sobre tantos assuntos em duas horas. Na minha visão, esse filme fala de uma transformação pessoal. Ou um descongelamento. 

Gerd Wiesler era um agente da polícia política da Alemanha oriental. Sua função era espionar artistas e possíveis contraventores. O escritor Georg Dreyman e a atriz Christa-Maria Sieland, sem saber, passam a compartilhar suas vidas com Wiesler, que escuta e grava tudo o que acontece no apartamento do casal.

No início do filme, ele é um homem impassível, analítico, frio, esperto e sagaz. Todas essas características são mentais. É possível notar uma cisão muito sutil entre a cabeça e o resto do corpo. Como se sua energia estivesse concentrada quase inteiramente no lóbulo frontal, na racionalidade. Não é possível notar nenhum movimento do peito (centro energético cardíaco) ou estômago (centro de energia central, responsável pela visceralidade e manifestação vital).

Uma cena muito interessante de notar essa construção no corpo do ator é quando ele sobe as escadas. Ele não olha para o chão. Anda como um robô. Determinado. Neste momento ele simplesmente precisa executar alguma coisa e se parar para pensar – olhar para o chão, por exemplo, significaria olhar para os pés (pés = base, raíz da vida, espiritualidade) – tudo iria por água abaixo, pois ele entraria em contato com certas partes que ele reprime em si (a humanidade, a fragilidade, a compaixão, a necessidade do outro). Ele está cindido. Neste momento ainda evita contato com ele mesmo. Não há movimentação dos quadris. Ele sobre como uma máquina.

É interessante também notar a sua voz, que não se altera (mesmo quando manda os alunos ficarem em silêncio pela segunda vez, ou quando alerta a vizinha da frente). Isso mostra um auto-controle matemático de si mesmo (bem alemão, diga-se de passagem).

 A cenografia, o movimento de câmera e o figurino também nos conduzem `a atmosfera estéril do personagem no começo do filme. As cores e formas que cercam o protagonista são frias e duras. A casa (que representa simbolicamente em diversas culturas a “alma”) é apresentada com um traveling que contempla um apartamento vazio (como a alma). A casa é clean, não tem objetos pessoais, nada que o personaliza ou humaniza. É como uma casa-uniforme. Poderia ser de qualquer um. Neste momento ele come sozinho (vale lembrar que a refeição em quase todas as culturas é um momento de encontro e confraternização). Na sequência ele liga a TV (companhia artificial, tão fria quanto ele). Corta para Drayman se divertindo ao jogar futebol de manhã com crianças. Contraste brusco entre os dois personagens, inclusive em relação `a casa. O apartamento do escritor é aconchegante, cheio de objetos, quadros, piano, é bastante personalizado.

O figurino dele é um uniforme cinza com detalhes quadrados (supõe-se que muitos usam um igual, ou seja, não há diferença entre uma pessoa e outra. A individualidade é moldada e o espírito tolhido por uma personalidade que segue e dita regras).

É interessante notar que os atores europeus são generosos na medida em que deixam a “construção do personagem” acontecer naturalmente na subjetividade do espectador. A direção de arte, a música e o roteiro já nos induzem a entender quem é cada uma daquelas pessoas. O ator não precisa sublinhar essas características representando

(Como diz Anthony Hopkins: se o roteiro é bom e a direção também, eu tenho que fazer muito pouco.)

No início do filme ele não olha para o que está fazendo, como por exemplo, bater na porta da van, passar o fone de ouvido para o outro funcionário.  Da mesma forma, ele também não olha para o interlocutor. Não se relacionar é a melhor forma de permanecer alheio a si mesmo. Ele desenha com o corpo seu padrão comportamental. Mantém literalmente os olhos fixos e retos, sem olhar para o lado, obstinado, compenetrado.

 A Transformação

 A primeira vez que ele sai do eixo da frieza é quando ele está escutando o abraço do casal. Ao fundo, as vigas cinzentas e pesadas fazem linhas na vertical da tela, e ele, em outro sentido, na diagonal de quadro, quebra todo o eixo de dureza, destoando do contexto rígido.

 A primeira respiração que ouvimos dele é pouco antes de fazer sexo com a prostituta. Ele está lavando o rosto e neste momento ele se olha no espelho (ele começa a olhar para si mesmo).

 O que começa a fazê-lo mudar é o livro de Brecht. Enquanto ele lê, o plano padrão de câmera muda. A câmera de cima mostra ele deitado (fora da posição de guarda. Deitado é vulnerável. Fascinado como um garoto. Por mais que sua respiração ainda esteja concentrada no centro energético frontal, a racionalidade começa a se manifestar mais alegremente, através de intenções como: clareza, revelação, epifania)

 Na sequência de Brecht, ele ouve o escritor ao piano. É visível, como não era até então, a respiração. Vemos o peito se mover, ou seja, o coração. Os olhos descongelam, marejam. Algo desperta dentro dele.

O escritor diz: “Sabe o que Lênin disse sobre a Appassionata de Bethoven? Se eu continuar ouvindo, não levarei a cabo a Revolução”. Há um paralelo entre Brecht e o congelamento do protagonista, ou seja, o homem rígido que está na escuta se permite ouvir a Appassionata de Bethoven e acaba não levando `a cabo algo que tinha planejado com racionalidade.

(Alguém fala em Brecht na festa de aniversário do escritor. Ao ouvir o nome do autor, o homem faz uma anotação de suspeita. Depois, é justamente Brecht que ele pega para ler e se humanizar).

A partir deste momento, cada vez mais é possível notar a respiração, os olhos menos fixos, os ombros mais baixos e o corpo mais relaxado e harmônico. Ulrich Mühe fez um lindo trabalho antes de ir embora.


A PRIMEIRA MULHER DO MUNDO ERA DO METAL

Originalmente postado em 07/11/2008

Sabia que existiu uma mulher antes de Eva? Sem contar o próprio Deus (a) que era macho e fêmea. Uma mulher mesmo.

Só que não se fala muito nela porque Adão ficou tão chateado quando foi abandonado que todo mundo prefere ignorar a existência de Lilith. Além disso ela causou problemas demais na pequena sociedade da época – sociedade que mesmo formada por apenas duas pessoas, foi tão forte que serve de exemplo até hoje –  e foi limada da história oficial.

A criação de Adão por Michelangelo

Depois que criou o bofe, bem bonitinho por sinal, Deus (a) se deslumbrou com a obra de tal forma que arranjou um pouco mais de energia e criou a primeira fêmea. Recolheu os restos de barro, pó, lama e água de onde esculpiu Adão e falou: “Filhão, segura a onda aí que eu vou providenciar uma mina pra você”. Era um dia inspirado e Deus (a) mandou ver: do meio da sujeira surgiu Lilith.

Sem celulilith

Reparem como Lilith é gostosona. E além de gata e gostosa ela ouvia death metal, sons obscuros e barulhentos, usava meia arrastão e mostrava o dedo do meio para o marido porque não queria se submeter a ele.

Um dia, depois de uma longa DR, Lilith se mandou. Falou: “tô fora! Você me irrita, esse Éden é cafona, eu vou ouvir Korzuz com o Diabo!”. E vazou. Foi para o inferno mesmo. Casou com o Demo e passou a se divertir chupando o sangue de criancinhas pelo resto da eternidade.

Enquanto isso, no paraíso, Adão, deprimido, implorava ao Pai (Mãe) por uma nova mulher. De sua costela surgiu Eva, uma moça bem mais patricinha do interior, jacu mesmo, porém obediente, sensível, meiga e submissa. Eles viveram felizes para sempre naquele tédio até ela desobedecer e comer a maçã.

Eis que surgiu dona Eva

Todas nós temos uma Lilith e uma Eva dentro da gente. São arquétipos femininos que se manifestam alternadamente. Se você for homem e estiver lendo, saiba que a sua namorada, sua irmã e sua mãe também têm. Na TPM, Lilith toma conta. Depois troca.

O grande segredo, dizem os amantes do equilíbrio, é conseguir equalizar as forças. Existem outros arquétipos femininos como Afrodite, Deméter, Perséfone, Hera, que também se manifestam. Cada uma traz um tipo de influência diferente e algumas só aparecem em fases específicas da vida da mulher. A idéia é ficar no centro, não se identificar totalmente com nenhuma, mas incorporar as influências positivas de cada uma delas.

Ah, tem um livro bem legal sobre isso:

A Deusa Interior – Um guia sobre os eternos mitos femininos que moldam nossas vidas

Jennifer Barker Woolger e Roger J. Woolger

 


Leve como domingo de manhã

É muito bom acordar com calor e barulho de ventilador de teto. É quase de tarde e o cheiro de café chega até a cama onde estou deitada, suando. Cheiro de café, vozes misturadas de pessoas queridas e música ao fundo é uma das receitas da felicidade. Ela se senta `a mesa, pensativa, e solta:

– E aí? Como faz?

Não tenho a menor idéia do que responder. Não é receita de bolo, nem de felicidade que ela quer (agora) mas de um roteiro de cinema. Entendo o conteúdo da dúvida e compartilho a sensação de incapacidade. Frustrante ficar imobilizado. Quando se tem apenas sensação líquida dentro do peito e se quer transformar em algo concreto, físico, como um texto, um quadro, uma escultura ou qualquer coisa desse tipo… é preciso ter um recipiente, se não a água não toma uma forma.

– Eu não tenho a técnica. Mas vai fazendo, que uma hora sai. – é medíocre, mas é tudo o que eu tenho a dizer.

Jack White canta na minha orelha alguma coisa interessante e bonita, que eu tenho dificuldade para decifrar mentalmente o significado. Não consigo entender letras em inglês. São partes diferentes do cérebro: a que sente e a que entende. Nesse caso é o contrário: o líquido entra por osmose pelos meus sentidos e depois eu tento colocá-lo no meu recipiente mental para entender. No caso do Jack, e da grande maioria dos artistas norte-ameticanos, existe uma técnica. Porque ter o peito arrebatado, ok, é uma coisa universal. A segunda etapa é arranjar um recipiente pro líquido e a terceira é passar para alguém beber. Então o líquido perde a forma novamente, dentro do organismo de outra pessoa, que mata a sede. Aí sim houve comunicação. Ao contrário de quando te jogam um copo cheio de líquido na cara – ou seja, a arte ruim, meramente emocional e pouco estruturada. Deu pra entender? Era isso que eu devia ter dito pra ela. Não que isso fosse indicar um caminho técnico pra qualquer coisa, mas pelo menos ia rolar uma empatia. Empatia é sentir pelo outro. É bom ser compreendido, né? Gostoso. É tipo chegar num beco sem saída com uma companhia. A alegria precisa de companhia para se manifestar. A angústia também? Não sei.

No chão, minha amiga olha uma Polaroid e pergunta quem é o cara na foto. Ele é loiro, tem um sorriso bonito e está meio gordinho, mas tem o corpo bonito mesmo assim. A outra amiga dobra um lençol com elástico. Dobrar lençol com elástico é mini-angústia. White Stripes já mudou de faixa e a amiga do lençol canta junto, enquanto a primeira se levanta para ajudar na missão-lençol. Mini-alegria compartilhada. Acho que ela e o loiro da foto têm futuro. Eu digo isso porque entendo dessas coisas, vai por mim – tento.

Está muito sol lá fora e eu sinto um misto de preguiça e prazer. Estou suando mais, mesmo com o vento virando na minha direção de tempos em tempos. Parece uma eternidade quando ele vai para o outro lado. Estou mole, Parece que estou de férias. Eu realmente estou. É que quando não se tem uma rotina fixa e árdua, as férias não têm a mesma sensação que tiveram em outras épocas. Oh, well. Estamos aqui, desta vez com quase 28, e isso me assusta um pouco.

Eu queria tocar bateria, como a mina do White Stripes. Mas não se pode ter tudo. É isso que os 28 vem ensinar. Tem uma foice que passa pra cortar aquilo que a gente plantou até agora. O que foi plantado vai ser colhido, o que não foi, já era. Mas pode ser bom fechar o leque. `As vezes ter menos opções é libertador. Outro dia eu tinha 22 e escrevia num blog cor de rosa, com nome falso. Eu tinha big-angústias. Hoje só de vez em quando, e umas minis.

Ele volta do banheiro e pergunta o que eu estou fazendo. Digo que estou escrevendo. Ele beija meu pescoço e vai não sei pra onde. Eu gosto dele e quero encher ele de mordidas. Alegria compartilhada.

Umas uvas sofrem no calor, lá fora, tentando atrair passarinhos. Eles devem ter mais o que fazer, porque não vieram comer as uvas, nem hoje, nem ontem. Eu também não comeria essas uvas se eu fosse um passarinho. Mas eu não sou, e também não sou ela, a que dobra o lençol. Sinto um misto de admiração, saudade e inveja pela vida tranquila e equilibrada que ela escolheu ter. Amigos igualmente sem família se juntam ali, no jardim da uva, aos domingos a noite para celebrar a liberdade de não ter TV a cabo, nem barzinhos com Valet, nem outras opções que nos afastam da simplicidade deliciosa. Ah! Que coisa boa!

Resolvo me movimentar em direção a algo, porque fico aflita com tanto prazer vindo do nada. Coloco coisas numa sacola e saio para ver o mar e desfrutar mais um pouco dessa plenitude em contagem regressiva.


Fellini Natal

Se Almodóvar tivesse feito um roteiro em parceria com Fellini, o filme seria mais ou menos como foi o meu natal passado. Ainda não é 26 de dezembro, mas quase. Não vejo a hora. Só para poder dizer que não foi hoje.

Toda a família é louca, mas nunca achei que fosse tomar um soco no olho no dia do aniversário do Cristo. Achei que, desta vida, sairia ilesa desse tipo de agressão. Não foi na infância, não vai ser agora, certo? Certo. A minha mãe agarrou a agressora antes que ela me acertasse a fuça. Olé! Gracias, madre. Em paralelo `a realidade que me vem `a memória em flashes, roda em minha mente o filme fictício: roupas floridas, brincos dourados. Papel de parede. Uma montagem frenética alternaria o bate-boca com uma emocionante tourada. Ah, e claro, estaríamos todas gritando em espanhol.

Interna / Dia. E que dia. Todos comem, é natal. O pobre peru é esfaqueado na mesa, sem dó. Um dia isso aí fez gluglu e hoje está delicioso no meu prato. Nhami. Queria ser mais consciente e ter nojo, mas não é o caso. Já tenho isso com as vacas, ainda não atingi o nível peru / peixe / frango. A câmera em traveling se aproxima da mesa, onde seguro uma criança no colo. É tudo PB. Essa é a versão Fellini. Tudo parece pacífico, até alguém gritar em italiano e arrancar a criança do meu colo. Sem o menor motivo aparente, tudo se transforma num caos. Agressões verbais e bateção de portas. Eu choro muito.

Me olho no espelho algumas horas depois. Pareço uma Cinderella borrada. Toda arrumadinha, coitada, e despenteada. A maquiagem borrada do choro, o cabelo desgrenhado. Vestido rosa-claro com babados nas mangas. Quem iria esperar por isso vestida assim? Foi isso que a tirou do sério? Ou foram as escolhas que fiz ao longo da vida e que diferenciaram tanto o destino de duas personalidades tão parecidas? A frustração contida pode ser perigosa.

A locação é outra, é a casa da mãe, que salvou do soco, e que também teve o natal arruinado pela destemperança de outro personagem.

– Esqueci meus presentes debaixo da árvore, lamento.

Ficou tudo lá. Mas tem etiqueta. O destinatário vai receber. Sinto raiva e tento alquimizar. Pouco a pouco a enxaqueca vai passando – com a ajuda de dois comprimidos de nomes diferentes. Perdi algo precioso e raro: um dia perto das minhas raízes.

Meu pai chega, umas horas depois. Assistimos ao Jornal Nacional juntos, meio com cara de bunda. Tomo um sorvete que estava na geladeira, afinal, perdi a sobremesa do natal. Fico emocionada de lembrar que não assisto TV assim com meus pais há pelo menos cinco anos. Estamos juntos e um pouco abatidos. Mas estamos juntos mesmo assim. Nada foi tirado de mim. Nem a alegria, nem capacidade de perdoar. Está tudo aqui dentro, em algum lugar. Olé! Feliz natal.