Consciência Pesada

Eles têm uma copeira latina que usa uniforme. A mesa de centro é de vidro, então cada vez que eu apoio o copo faz um certo barulho, o que denuncia meu estado alcoólico. Damn it, preciso ir devagar. É a minha primeira vez em Los Angeles, mas pelo que entendi a “parte alta” – alta mesmo, na montanha – é onde moram as estrelas. Keanu Reeves é o vizinho. O anfitrião deve viver dos direitos autorais da conhecida série de TV que escreveu no fim dos anos 70. Depois que seu parceiro e melhor amigo faleceu, vinte anos atrás, não lançou nenhuma obra inédita. 

Sete da noite. Vinho branco. Não posso tomar muito porque embebedo em dois segundos e preciso conseguir conversar em inglês. Entender as perguntas que ele vai me fazer sobre como encontrei o texto e por que eu e meus parceiros queremos montá-lo no Brasil. Eu sou apenas uma pirralha beirando os 30 que se meteu a comprar os direitos de uma peça, tento deixar isso claro. É muita informação, então vou bebendo bem devagar enquanto vou comendo os quitutes colocados sobre a tal da mesa de centro da ampla sala bem decorada. Não sei muito bem como fui parar ali, mas entendo que ela, a esposa, já foi para São Paulo, não sei bem em que ocasião, pois ela falou rápido demais e eu estou tentando responder `as outras perguntas, feitas pela sobrinha dela, que é agente dele. Somos quatro personagens. Cinco, contando com o cachorro que amou minha meia-calça. Seis, com a moça latina que entra em cena de vez em quando para servir mais alguma coisa, até se despedir `as oito horas. 

A esposa olha para ele com uma ternura profunda que eu gostaria de alcançar um dia. Ele se apoia numa bengala. Ela tem a voz rouca. Ele escuta com dificuldade.

Ela é atriz. Era óbvio, desde a hora em que entrei no carro. Ela foi me buscar no hotel para que eu conhecesse seu marido. Vê-la dirigir e falar já é incrível. Tem gente que nasceu pra ser visto. Ela tem um brilho generoso, que faz o outro lembrar que tem o mesmo brilho, em algum lugar da Alma.

– Gostaria de ver você no palco – eu disse.

– Aqui ninguém escreve para mulheres da minha idade. E quando escrevem, a Jane Fonda é quem faz. Então… 

Estamos rindo enquanto ele conta sobre o dia em que não aceitou a proposta de um jovem diretor que queria dirigir um de seus roteiros. Ele se chamava Steve Spielberg. Depois mudou para Steven. Ele diz que se arrepende amargamente e que nunca se deve negligenciar alguém por ser jovem e inexperiente. Consciência pesada. Ela assiste contemplativa ao nosso diálogo entusiasmado. Me parece que os olhos dele hoje brilham um pouquinho mais que o normal. Ela confirma que minha impressão está correta tocando de leve seus joelhos com a ponta dos dedos. Os mesmos olhos turvam ao falar do melhor amigo. Uma pausa. Eles são americanos e resolvem mudar de assunto rápido. 

– Esse papel é de uma grande responsabilidade – ele diz, se referindo ao papel do protagonista da peça.

– Vou avisar o ator – respondo, ainda sentindo o vácuo do assunto anterior, o melhor amigo.

Explico que gostei do texto porque me lembra Hitchcock e sou fã de tramas de suspense. Soa como se eu tivesse feito uma pesquisa enorme. Mas a verdade é que tive sorte e confiei nas críticas que li sobre a peça na internet. Random. O nome me atraiu: Consciência Pesada. Puro entretenimento, sem grandes pretensões. 

– Hitchcock estava enorme de gordo quando fomos almoçar. Mal conseguia sentar na cadeira. 

– Uau – não sei o que comentar

– Alguém sugeriu que gravássemos a conversa. Não achei ético. Ele nos deu uma consultoria uma vez, sobre um roteiro que tínhamos escrito. Todas as anotações eram de Alma, sua esposa. Alma era o grande cérebro. Ele nunca deu a ela nenhum crédito.

– Sempre uma grande mulher por trás de um homem, ah? 

Eu não deveria ter dito isso, porque isso talvez seja um segredo em certas relações e ela me olha agora como se eu tivesse revelado uma parte da trama que deveria ter ficado oculta. Talvez eu pudesse ter feito um trocadilho: “sempre uma grande alma por trás de um homem”, ou algo assim, soaria mais engraçado pelo menos. Sou brasileira, então mudo de assunto muito rápido.

– Conhece filmes brasileiros?

Ele adora Central do Brasil. Digo que fiz uma pontinha num filme do Walter Salles e que ele é um lord. Ele volta a falar de Hitchcock:

– Ele me deu uma dica que nunca esqueci: um roteiro só suporta uma coincidência. Mais que uma, e o público não confia mais na sua história.

A coincidência dessa história foi eu ter topado com esse texto e vindo parar aqui – penso. 

Ele me mostra seu escritório, seus prêmios e livros. Parece orgulhoso. Ela vem atrás. A sobrinha olha no relógio. Diz que vai me levar de volta para o hotel. 

Agradeço imensamente, e digo que amanhã entrego o dinheiro dos direitos. Eu trouxe o dinheiro num envelope. Ela ri e finalmente entende que sou uma pirralha metidinha, não exatamente Steve.

No carro, a sobrinha é quem me agradece, como se eu tivesse feito um grande favor. Disse que eu tive muita sorte em encontrá-la, afinal ele não é representado por nenhuma grande agência de autores há duas décadas, desde de que parou de escrever. Será que são duas coincidências na mesma história? Não. Acho que são duas histórias. Uma é essa. A outra estará em algum palco, em breve. 

(Se você, AMADO EMPRESÁRIO ou ALMA LINDA do marketing de uma empresa INCRÍVEL DE LEGAL, que patrocina teatro pela Lei Rouanet ou Proac, VAI AMAR ESSA PEÇA, tenho certeza. Entre em contato aqui, vamos teclar, que eu te conto tudo. Beijos, te amo muito).


A única coisa que não pode

Eu disse pra ela que não tinha nada de místico. Eu tinha que dizer, ou ela não iria comigo.

– Só tem uma regra: não pode revelar o mantra – expliquei, mesmo sem ter noção do porquê – O pessoal lá fala em resultados, resultados, resultados e gráficos cartesianos. Ou “seje”, o bagulho é bastante objetivo. Eles usam gravata, são calminhos e sorriem bastante. Eles falam o tempo todo em efeitos regenerativos e usam palavras difíceis que a gente `as vezes não entende, mas que os médicos e as pessoas da ciência gostam e por consequência a gente se sente seguro quando ouve, e certamente depois de uma semana de aula nós vamos regenerar várias coisas, inclusive nosso próprio vocabulário e ficaremos não só mais tolerantes e compassivos quanto inteligentes. Me encontra lá `as oito? Beijos.

Talvez por conta desta argumentação, feita via gtalk, a Mariana tenha topado ir. Ela é gêmeos com gêmeos, ou “seje”, jamais entraria num lugar onde alguém diz que vai mudar sua vida usando bata, ou com algo colado entre as sobrancelhas, e dizendo o que você pode ou não pode fazer para atingir um estágio mais evoluído de existência. Ah, só tem uma regra: não pode revelar o mantra.

A Elisa topou mais fácil porque ela é peixes com sagitário, então foi só proferir as palavras “meditação transcendental” para que, sem grandes questionamentos, ela fosse nos encontrar meia-hora antes do combinado para bater papo com o pessoal de gravata e sacar o feng shui do lugar.

A única coisa que não pode é revelar o mantra. Eu já disse isso, eu sei. É que eles repetem algumas vezes. Como um mantra. O mantra é uma palavra em sânscrito que você fica repetindo mentalmente. É uma palavra que não significa nada, tipo “geléia”, só que eu sânscrito. Cada um recebe um. E eles reiteram para você entender: não significa nada. Por isso não questione. Não quer dizer nada. Mesmo. E aquilo te faz não ter mais insônia. Nem medo, nem depressão. E ser feliz pra caramba. E pensar num coelho branco e resolver um roteiro empacado e ganhar o Oscar. Coisas assim. Aí você leva uma fruta e umas flores no primeiro dia, só pra constar e pronto. Só não pode revelar o mantra.

No segundo dia recebemos o mantra, que é uma palavra que não significa nada. Nada mesmo. Só não pode contar pra ninguém. Adoro segredos. Nunca guardei um. Talvez isso devesse ser um segredo, mas a verdade é que acho muito difícil manter uma informação guardada só para mim, então dou sempre um jeito de dividi-la. Mas desta vez eu estava disposta a obedecer.

As pessoas céticas sabem guardar segredos muito melhor do que as que crêem em coisas. Os céticos limam o mistério da vida porque têm urgência em obedecer a alguma verdade ou regra. Talvez os céticos não suportem a própria grandeza e infinitude e precisem se agarrar a alguma ilusão de fim.

Os primeiros dias foram incríveis porque eu não questionei nada e realmente minha ansiedade baixou a zero e eu estive em Júpiter e vi coelhos lindos, até que fui jantar com a Elisa, que é uma pessoa que crê em coisas. Ela colocou o mantra no google. Sim, MEU DEUS, ela colocou o mantra no google. A Mariana não, mas a Elisa sim, e ela descobriu que o mantra é (PAUSA DRAMÁTICA)… a invocação de uma entidade divina hindu que vem para curar nossas mazelas. (PAUSA). A entidade é tão maravilhosa que ela pensou em tatuar ou fazer um poster pra botar no quarto. Se cada um tem um mantra, cada um tem uma entidade que precisa invocar e eles descobrem isso pela cor da fruta que você leva no primeiro dia. Claro, esse pessoal de gravata acha que engana a gente com esse falso ceticismo? Eles pedem frutas e flores para lerem a nossa alma! Óbvio, o universo é muito maior e as dimensões espirituais estão presentes em tudo, não me venham com gráficos cartesianos. Claro, entendi. Eles estão querendo fazer o bem a qualquer custo, por isso se disfarçam de céticos para atingir os próprios céticos, genial, e quando chegam em casa a noite eles colam coisas entre as sobrancelhas e comem comida orgânica e rezam. Eles na verdade são hippies disfarçados de cientistas.

Cheguei em casa e dei um google no mantra. A única coisa que não pode é mexer com o mantra. Ah, mas não pra mim, vai, porque eu já entendi todo o esquema.

No dia seguinte fui meditar e fiquei pensando no google. Depois na culpa de ter botado o mantra no google. E depois no que iria dizer para o orientador sobre ter desobedecido a única coisa que não podia, e na possível reação negativa dele. Não vi mais coelhos nem oceanos, nem estrelas, nem nada. E não transcendi. Nem no outro dia, e nem no outro. Fui corrompida pelo meu excesso de crença. Ou pela minha falta de fé. O que dá na mesma.

Aí fui confessar para o homem de gravata que eu violei a única coisa que não podia. Ele riu e disse para eu continuar meditando.

 

 

PS – anota aí meu mantra: é…. (nããão pode contar!)


Malu pela janela

Há séculos que eu não tinha vizinhos. Assim, de porta. Porque agora eu moro numa casa de novo e tem vizinhos de todos os lados – dos lados e nas costas. E tem uma criança que está querendo muitas coisas toda hora. Muitas, muitas, muitas mesmo. Eu percebo que a mãe tá desesperada para resolver porque assim a paz volta pra todo mundo, inclusive pra mim que to tentando escrever umas coisas. Consigo entender mais ou menos umas frases tipo “o tio vai…” “vai lá…” “lindoooo” e umas palavras meio nada a ver que vão se juntando aos poucos que nem uma música que vai revelando cada instrumento. Só que é uma melodia meio sem pausa, que vai batendo rápido  – não sei se é o meu bairro que é quieto demais ou se é São Paulo que esvaziou de repente, mas agora existe som de gente, bem louco isso né meu (Meu, não posso acreditar que escrevi isso, e li agora, depois de duas semanas, fez mais sentido do que nunca). E o que que entra pela janela de madeira, é o que dá pra entender, né. Eles são os vizinhos dos fundos – que plantaram a tal da trepadeira que que vem por cima da cerca e cai no meu quintal e deixa coisa toda mais verde, né a cor verde é demais que dá pra ver da janela de madeira que falei agora. A mesma que me apaixonei em abril, porque ela abre de cima a baixo, e por causa dela resolvi que tudo ia ser novo mesmo, a do meu quarto. Mas tudo tem um preço. Inclusive pra tadinha da Manu, putz, é MALU, que teve o nome pronunciado pelo pai agora tão forte que deu total pra entender, até pra corrigir depois. Ela quer simplesmente comer a sobremesa antes do almoço, só isso, só isso, porque é sábado e sábado poderia poder tudo, não é mamãe, né mamãe, fala, fala mamãe, e a mamãe está irritada não só com a insistência da coitadinha da Malu, mas pelo tom de voz do pai da criança, com quem eu resolvi me casar e deixar de priorizar, pelo menos “temporariamente” o que tava em jogo na minha vida naquela hora, e todos os esforços que eu tinha que ter feito para que as coisas acontecessem, mas eu não achei que era tão assim e com a fecundação do óvulo, meio que sem querer querendo ficou tudo mais difícil ainda e agora o cara está chateado em descobrir que tem que tomar umas providências chatas pra caramba do tipo chamar o carroceiro depois de ir no Ceasa cedo porque ela não é minha mãe e eu sou tipo um homem feito agora, de quase quarenta anos. Só que é foda, porque eu ainda acho que eu podia ter feito uma escolha melhor. E ela também.

(Isso é apenas um exercício de liguagem inspirado nas aulas que estou tendo com o dramaturgo Leo Moreira. É uma tentativa de reproduzir a maneira como eu falaria de fato esse texto – e no fim uma experiência de mudança de pessoa)

Deu Zebra

Ainda não há uma tradição de webséries no Brasil, nem no mundo. O formato vem sendo descoberto, aos poucos, com uma ou outra série pipocando aqui e ali. Caso você não seja uma das cinquenta mil pessoas que já viram Lado Nix, corra pra ver! Não é porque eu estou nela, e nem porque foi dirigida por um grande amigo. JURO!

Lado Nix é pioneira em linguagem e formato. Cheia de referências de cinema e games, aposta num humor que tira sarro de si mesmo, com piadas tão rápidas quanto os cortes da montagem – que picota planos fechados em deliciosos episódios de 6 minutos. Viva o formato websérie! Parabéns ao Paulão (Mavu) e a toda a equipe da Mambo Jack pela iniciativa ousada, corajosa e criativa!

Bom. Conheci o Paulão nos idos de 2001. Ele trabalhava com sapatos. E eu não trabalhava com nada. Eu tinha 17, 18 anos e estava no primeiro ano da faculdade. Ele já tinha uns 26 e entrava nas salas de aula para fazer campanha para a nova chapa do Centro Acadêmico. Era engraçado. Por ser um pouco mais velho que a pivetada, ele fingia que era o professor e dava 15 minutos de uma aula absurda. Aí ele revelava que era aluno e dizia para votarem na chapa Zebra.

Um dia, ficamos amigos. Coincidências do destino. Eu estava louca por um emprego meio período, e ele era o novo presidente do Centro Acadêmico da faculdade. Fui contratada. Minha função era ajudar os alunos a imprimir coisas, pregar cartazes, vender convites de festas, grampear as coisas que eles tinham impresso e desligar o ar condicionado no fim da noite.

Não vou mencionar os strippers, as velas e os anões que o Paulão contratava para dançar a conga em pleno Centro Acadêmico, porque isso não vem ao caso. E ele não teria como responder publicamente aos meus comentários. Mas fato é que a gente se divertiu horrores nessa época, em festas que tinham shows do Rodney Di, Gretchen e Bozo.

Os anos se passaram e nós mantivemos uma média de duas ligações por ano, nos respectivos aniversários. Ele vendeu as lojas de sapato e abriu uma produtora, a Zebra, que depois mudou de nome. Eu fui trabalhar em TV e fui engolida pelo sistema (#not). Na real, sempre senti que o Paulete estava por perto. A cada realização profissional minha, ele ligava para me dar força e dizer que era meu primeiro fã. Dez anos atrás, numa viagem pra Floripa, ele disse: “eu sei que você vai ser famosa. me dá um autógrafo”.

Na verdade, a fã sou eu. Inexplicavelmente, eu queria ser amiga desse cara desde a primeira vez que eu o vi fazendo um discurso que mais parecia um stand up comedy. Essa websérie me enche de orgulho porque é mais uma idéia maravilhosamente improvável e absurda que se concretiza. Assim como a chapa Zebra, o show do Bozo, e os sapatos que viraram câmeras. Alguém que tem coragem, organização e cara de pau de concretizar idéias absurdas (nesse país!) tem todo o meu respeito e fascínio.

Paulete, I love you. Conte comigo sempre. Parabéns e obrigada. Você é foda. Eu sabia que ia dar Zebra!


Kirk Hammett, o salvador do carnaval

Amigos, escrevi essa crônica em 14/10/2008, em Londres. Era verão, eu estava de férias com meu amigo Zé Antônio, e ele conseguiu que a gente fizesse uma entrevista com o Kirk Hammett, do Metallica. Eu estava animada, não fossem alguns problemas. Era carnaval.

Saio de casa acompanhada de duas meninas que nunca vi na vida e de uma cólica tenebrosa. Agosto. Carnaval? Não entendo. Inverte o hemisfério, inverte tudo? Resisto. Fui porque insistiram. Eu queria ter ficado em casa, esperando o Zé ligar e avisar a hora da entrevista. Tarde demais. Gostaria de conseguir me dissolver na água, junto com gotas de buscopam e ficar dormindo no fundo do copo. Infelizmente eu não tenho remédio.

Nada funciona neste dia porque hoje pode ser profano sem ir pro inferno. A celebração da carne anima jamaicanos, latinos e ingleses mais bronzeados. E a tal da festa acontece num bairro que, até então, eu só tinha ouvido falar em nome de filme.

Chegamos em Notting Hill e o pseudo-carnaval bombado e inimigo do bom gosto já deixa rastros no chão: plumas e purpurina suja junto com restos de carros alegóricos que já no próprio desfile vão caindo aos pedaços. Coisa pra gringo ver. De qualquer jeito, acho que eu era a mais negra de todas. Sem brincadeira.

E fui parar não sei como com aquele copo cheio de café na mão. Ponstan até tinha, mas esse, se eu tomar empacoto. Tenho comichão. Na real, preferiria o ponstan do que ter vindo parar aqui. Tem um aparelho de som novo e gigantesco numa prateleira frágil de madeira que treme insegura a cada batida da axé music que rola no talo. Juro por Deus. O som não foi tirado do plástico e nem vai ser. Assim deve ser mais chique.

Não sei de quem era aquela casa, se era da “loura” cinquentona de piercing no umbigo que rebolava até o chão com uma sandália plataforma de madeira ou do rapaz com a camisa do Fenômeno que se esgoelava pela cozinha. Descobri porque os paquistaneses da imigração fazem tantas perguntas para os brasileiros que desembarcam em Heathrow. Os caras infernizam geral. Mas pelo menos me deram esse café que esquentou meu útero em contrações.

– Obrigada, senhora. – para a provável mãe da “loura”.

Uma querida. Tinha um cachorro minúsculo que se enroscava aos seus pés enquanto ela fazia mais café. Menor que um rato. Nunca vi.

As duas meninas, que eu custava a memorizar os nomes, já suavam de tanto sambar em frente a casa, por onde passavam os blocos. Minha cólica piorava sempre que eu olhava para fora. Achei melhor olhar os bibelôs da sala. Estatuetas de santos, quadrinhos, pratos pintados, miniaturas, anjos de porcelana. Como será que esse pessoal trouxe tanto cacareco na mala sem quebrar? Tem perguntas que simplesmente não têm resposta. A gente tem que aceitar isso na vida. Principalmente em dias como este.

Ufa, tocou meu celular. Aleluia, a entrevista com o Metallica vai ser mais cedo. Ok, to indo.

– Gente, desculpa, a festa tá boa mas eu tenho que ir! Tchau!


Tempo

Originalmente postado em 21/01/2009

Editado em 10/08/2011

Três semanas antes

Mais uma vez no apartamento de Dea Martins. Desta vez ela não está. Tenho a sensação de que recalco um certo amozinho por esse Rio de Janeiro, que me causa antipatia. Ele não me dá bola. O rio que me leva para janeiro – desesperado pela aproximação do ano de 2009 – parece mais uma corredeira alucinada do que o riachinho que foi antes. Hoje é 30 de dezembro. Quase 31. Estrondos já acontecem lá fora. Todo mundo sorri e agradece a tudo. Agradece ao taxista, ao balconista, `a Iemanjá, ao tempo que melhora, ao raio que o parta. Tem que aproveitar, nem sempre é assim. Quase me esqueço: o que eu estou fazendo aqui, mesmo? Ah, me lembrei. Amanhã chega alguém que eu espero há meses.

Tento conter os fogos de artifício que pipocam em sinapses cerebrais e me concentrar na noite que precisa ser dormida. Se Dea estivesse aqui eu conseguiria expressar melhor o que quero dizer porque ela me inspira horrores. When she is around, as palavras escorrem pela ponta dos dedos e sapateiam sobre as letras do teclado. Mas desta vez, Dea leonina me abandonou e foi para a Lapinha com seus amigos malucos, me deixando uma chave de presente. Mandou eu me divertir, namorar e desligar o computador caso ele venha a ser usado – nessa ordem. Ela fez uma lista. Não apenas: espalhou bilhetinhos pela casa inteira. Parecem lamparinas, porque são amarelos. Amarelos post-it. São mini romances grudados pelas paredes do pequeno apartamento no Bairro Peixoto – o oásis de Copacabana. Me fazem rir. Um dos bilhetinhos ensina a usar o chuveiro. Ela diz: ‘ligue primeiro a quente. Quando o aquecedor começar a funcionar, tempere com a fria. Ou, se neste dia estiver muito calor, nem ligue a quente. Tome banho frio’. I love it.

O porta-retratos caiu de novo. De novo é separado. Insisto em escrever denovo junto porque acho que soa melhor. Minha mãe me corrigiu um dia desses. Voltando: Déa tem uma estante no quarto dela lotada de portas-retrato. Uma estante de instantes. São instantes congelados em molduras antigas, de diferentes cores e épocas. Fotos em preto-e-branco, coloridas, desgastadas, outras novas. Tem fotos nas paredes. Anjos, beijos gays, Paris na chuva. E tem esse porta-retrato que caiu sozinho pela terceira vez esta noite. E não está ventando neste quarto. Obviamente  fiquei com medo de não ser bem-vinda por qualquer entidade oculta que se esconda entre o que vejo e o que imagino.

Estou dando um jeito de entrar em pânico por alguma razão obscura e inexplicável. Assim ela permanence obscura e inexplicável. Mais fácil. O motivo real do meu medo é real demais para uma elaboração pacífica e compassiva que me permita pregar o olho até amanhã de manhã. Prefiro ter medo de coisas impossíveis do que assumir a verdade de certos acontecimentos iminentes que venham a provocar crises doloridas dentro de mim. Transformações reais. Vou continuar fugindo e fingindo mais um pouquinho. Tentando. Adorei minhas feições hoje no espelho. Estou tentando me distrair comigo. Com minha permanente nos cílios, que gracinha. Minhas unhas paris com renda. Qualquer futilidade besta que me distraia do fato de que em três semanas minha vida vai virar do avesso. Ele vai me deixar de novo.

Três Semanas Depois

Hoje Janeiro já chegou, o sol veio e foi umas várias vezes entre coqueiros na praia e prédios na cidade. Agora parece que foi embora de vez. Quando chove assim parece que ele nunca mais vai voltar. Chuva e choro. Ambos começam com ch. Cheiro também. Chegada começa com ch. Mas acho – acho também tem ch – acho que ‘partida’ deveria se chamar ‘chegada’ e vice-versa, seguindo a lógica das lágrimas que vão despencando de cima para baixo fazendo do ch uma onomatopéia perfeita para ilustrar a água que cai: chuá.

Ordinárias três semanas seriam estas não fosse por uma urgência inédita de sentir o ar entrando por absolutamente todos os centésimos de segundo dos meus poros. Isso faz a gente sentir a vida como ela realmente é.

Falei com a Dea uma vez apenas por telefone. Ela odiou a Lapinha. Não tinha nada para fazer. O chão era todo de terra, não tinha luz elétrica e choveu tanto que eles ficaram atolados no barro, fugindo de adolescentes hippies que descobriram que, entre os malucos da turma dela, tinha uma atriz  super famosa que todo mundo conhece. Sob a varanda da casa capenga que eles alugaram, conteciam serenatas para homenagear a atriz durante as madrugadas. Ainda bem que todos são bem humorados e a vida continua.

O ano começou agora, dia 20 de Janeiro. Três semanas atrás eu era a pessoa mais ansiosa do mundo – hoje sou a mais pensativa. A mais ansiosa hoje deve ser o Obama. Três semanas atrás ele deveria ser o mais pensativo. E espero que continue pensando.

Está vazio, quieto. Não digo abandonado porque é da minha própria casa que estou falando. Roupas sujas. A bagunça me olha. Os gatos estão jogados num canto, acostumados `a inconstância das coisas. Nem miam, de tanta preguiça.

Não sei o que vai acontecer e tenho medo. Sinto que uma mudança está próxima. Meu estômago me avisa que nada será como antes. Pergunto ao tarô e ele me devolve a Lua como resposta. É a mesma imagem que o inspirou a pintar e emoldurar um retrato dias atrás. Olho para a parede: sou eu de costas, na praia, com um pincel na mão e uma lua de Van Gogh no céu, como se eu mesma tivesse acabado de pintá-la.

Leio o significado da carta:

“Um tempo de mistério, assombro e terror. Estamos perdidos até para nós mesmos. Na profundeza das águas, um lagostim tem as garras estendidas. Atrevemo-nos a prosseguir? Ou essa monstruosa criatura estenderá as patas a fim de puxar-nos para trás? A lua a todos contempla – em silêncio. A Deusa da Lua na noite terrível é também a dadora de sonhos, a reveladora de mistérios ocultos. É realmente o lagostim nosso inimigo? Ou também luta para chegar `as torres distantes? Uma revelação… o terror se dissolve em assombro. A criatura já não parece ameaçadora. O lagostim oferece o dorso para o nosso passo. É agora ou nunca. Ousemos ou morramos”. (Jung e o Tarô. Nichols, Sallie)

 

Dois anos e meio depois

Não entendo ainda a carta da lua. Tenho medo dela. Cada vez menos medo, na verdade.

A Dea é que vem me visitar agora. Ela vem toda semana para São Paulo. Colhi essa amizade num pântano e ela é uma flor de Lotus para mim.

Ele voltou com malas. Viu o retrato pregado na parede e tentou se sentir em casa. Ganhou uma chave de presente, lavou a louça, cozinhou, roncou, reclamou dos cachorros que latem na vizinhança. Fez isso por um ano. Um dia, foi embora para sempre. Meu estômago doeu muito. Chs despencaram de mim, drenando minha água. Hoje não mais.

Uma transformação realmente ocorreu. E outra, e mais outra. Descobri que elas não acabam. Tenho me distraído menos com a cor do meu esmalte ou a curva dos cílios. Acho que perdi um pouco da capacidade de me enganar. Talvez por isso a carta da Lua não me assuste mais tanto. 

 

 

 

 

 


A Vida dos Outros

Nada a ver com era digital. Queria falar daquele filme alemão mesmo, que ganhou Oscar e Globo de Ouro há alguns anos. Foi dirigido por um cara bem jovem chamado Florian Henckel von Donnersmarck. Na época eu fazia uma peça no teatro Cândido Mendes em Ipanema e aproveitava para pegar a sessão de cinema ali do lado antes do espetáculo. O cineminha fuleiro passava uns filmes nada mainstream e a sessão era vazia. As cadeiras horríveis. Mas o filme me fez voltar ali mais duas vezes na mesma semana.

Pouco depois, um amigo meu psicólogo me contou que tinha sido convidado para escrever uma análise sobre este filme. Me ofereci para ajudar. Escrevi uma pequena análise sobre a interpretação do protagonista Gerd Wiesler (Ulrich Mühe, falecido logo após as filmagens) e mandei para ele. Não sei se o livro / artigo saiu, mas resolvi postar meu texto aqui para quem quiser ler.

É sempre difícil condensar um filme em apenas uma palavra. Porém, curiosamente, os melhores filmes permitem que isso seja feito. Simplesmente porque os roteiristas sabem do que estão falando. E não é possível falar profundamente sobre tantos assuntos em duas horas. Na minha visão, esse filme fala de uma transformação pessoal. Ou um descongelamento. 

Gerd Wiesler era um agente da polícia política da Alemanha oriental. Sua função era espionar artistas e possíveis contraventores. O escritor Georg Dreyman e a atriz Christa-Maria Sieland, sem saber, passam a compartilhar suas vidas com Wiesler, que escuta e grava tudo o que acontece no apartamento do casal.

No início do filme, ele é um homem impassível, analítico, frio, esperto e sagaz. Todas essas características são mentais. É possível notar uma cisão muito sutil entre a cabeça e o resto do corpo. Como se sua energia estivesse concentrada quase inteiramente no lóbulo frontal, na racionalidade. Não é possível notar nenhum movimento do peito (centro energético cardíaco) ou estômago (centro de energia central, responsável pela visceralidade e manifestação vital).

Uma cena muito interessante de notar essa construção no corpo do ator é quando ele sobe as escadas. Ele não olha para o chão. Anda como um robô. Determinado. Neste momento ele simplesmente precisa executar alguma coisa e se parar para pensar – olhar para o chão, por exemplo, significaria olhar para os pés (pés = base, raíz da vida, espiritualidade) – tudo iria por água abaixo, pois ele entraria em contato com certas partes que ele reprime em si (a humanidade, a fragilidade, a compaixão, a necessidade do outro). Ele está cindido. Neste momento ainda evita contato com ele mesmo. Não há movimentação dos quadris. Ele sobre como uma máquina.

É interessante também notar a sua voz, que não se altera (mesmo quando manda os alunos ficarem em silêncio pela segunda vez, ou quando alerta a vizinha da frente). Isso mostra um auto-controle matemático de si mesmo (bem alemão, diga-se de passagem).

 A cenografia, o movimento de câmera e o figurino também nos conduzem `a atmosfera estéril do personagem no começo do filme. As cores e formas que cercam o protagonista são frias e duras. A casa (que representa simbolicamente em diversas culturas a “alma”) é apresentada com um traveling que contempla um apartamento vazio (como a alma). A casa é clean, não tem objetos pessoais, nada que o personaliza ou humaniza. É como uma casa-uniforme. Poderia ser de qualquer um. Neste momento ele come sozinho (vale lembrar que a refeição em quase todas as culturas é um momento de encontro e confraternização). Na sequência ele liga a TV (companhia artificial, tão fria quanto ele). Corta para Drayman se divertindo ao jogar futebol de manhã com crianças. Contraste brusco entre os dois personagens, inclusive em relação `a casa. O apartamento do escritor é aconchegante, cheio de objetos, quadros, piano, é bastante personalizado.

O figurino dele é um uniforme cinza com detalhes quadrados (supõe-se que muitos usam um igual, ou seja, não há diferença entre uma pessoa e outra. A individualidade é moldada e o espírito tolhido por uma personalidade que segue e dita regras).

É interessante notar que os atores europeus são generosos na medida em que deixam a “construção do personagem” acontecer naturalmente na subjetividade do espectador. A direção de arte, a música e o roteiro já nos induzem a entender quem é cada uma daquelas pessoas. O ator não precisa sublinhar essas características representando

(Como diz Anthony Hopkins: se o roteiro é bom e a direção também, eu tenho que fazer muito pouco.)

No início do filme ele não olha para o que está fazendo, como por exemplo, bater na porta da van, passar o fone de ouvido para o outro funcionário.  Da mesma forma, ele também não olha para o interlocutor. Não se relacionar é a melhor forma de permanecer alheio a si mesmo. Ele desenha com o corpo seu padrão comportamental. Mantém literalmente os olhos fixos e retos, sem olhar para o lado, obstinado, compenetrado.

 A Transformação

 A primeira vez que ele sai do eixo da frieza é quando ele está escutando o abraço do casal. Ao fundo, as vigas cinzentas e pesadas fazem linhas na vertical da tela, e ele, em outro sentido, na diagonal de quadro, quebra todo o eixo de dureza, destoando do contexto rígido.

 A primeira respiração que ouvimos dele é pouco antes de fazer sexo com a prostituta. Ele está lavando o rosto e neste momento ele se olha no espelho (ele começa a olhar para si mesmo).

 O que começa a fazê-lo mudar é o livro de Brecht. Enquanto ele lê, o plano padrão de câmera muda. A câmera de cima mostra ele deitado (fora da posição de guarda. Deitado é vulnerável. Fascinado como um garoto. Por mais que sua respiração ainda esteja concentrada no centro energético frontal, a racionalidade começa a se manifestar mais alegremente, através de intenções como: clareza, revelação, epifania)

 Na sequência de Brecht, ele ouve o escritor ao piano. É visível, como não era até então, a respiração. Vemos o peito se mover, ou seja, o coração. Os olhos descongelam, marejam. Algo desperta dentro dele.

O escritor diz: “Sabe o que Lênin disse sobre a Appassionata de Bethoven? Se eu continuar ouvindo, não levarei a cabo a Revolução”. Há um paralelo entre Brecht e o congelamento do protagonista, ou seja, o homem rígido que está na escuta se permite ouvir a Appassionata de Bethoven e acaba não levando `a cabo algo que tinha planejado com racionalidade.

(Alguém fala em Brecht na festa de aniversário do escritor. Ao ouvir o nome do autor, o homem faz uma anotação de suspeita. Depois, é justamente Brecht que ele pega para ler e se humanizar).

A partir deste momento, cada vez mais é possível notar a respiração, os olhos menos fixos, os ombros mais baixos e o corpo mais relaxado e harmônico. Ulrich Mühe fez um lindo trabalho antes de ir embora.