Dia Fora do Tempo

Fiz este desenho num mês de julho, há alguns anos, e resolvi inventar uma história sobre ele.

Ela não estava convicta de que tudo correria bem, mas resolveu tentar, afinal, em sua cabeça, seus 23 anos durariam pelo menos cinco. Essa ingnorância a respeito da efemeridade de suas maçãs do rosto refletia num comportamento quase quinze vezes mais seguro que o dele – ou, segundo ele, mais impulsivo. A urgência do rapaz em saber se ela tinha certeza de que queria voltar a ficar junto era nítida pelos quase quinze anos de diferença e algumas marcas na pele – charmosas, segundo ela, mas que para ele, o obrigavam a fazer escolhas.

Ela tentou. Marcou um encontro romântico, na praça do pôr-do-sol. Decidiu ir a pé. Sabia que pensava melhor enquanto caminhava. Tinha que cuidar apenas das músicas que seu ipod shuffle colocava para ela ouvir durante o trajeto. Tinha percebido que Ramones não a ajudava a pensar claramente nas coisas. Preferia David Bowie.

Ele chegou antes, com uma caixa de cerejas e outra de damascos secos. Ela achava aquilo tudo meio ridículo, não entendia como alguém podia se alimentar como um esquilo, germinar linhaça e coisas assim. Era 2007, por favor. Claro que ela não disse nada, e na verdade, adorou as cerejas estranhamente maduras e fora de época.

Estavam afastados há algumas semanas. Ele tinha finalmente conseguido não atender suas ligações e permanecer firme `a decisão que ela mesma tinha tomado, e como sempre, se arrependido depois. O amor não era mútuo. Ambos demoraram para perceber.

Fato é que meses antes ele tinha mencionado o “dia fora do tempo”, e ela nem sequer se lembrava disso. Provavelmente estava de ressaca, jogada na cama e ele, de peito estufado, semi nu, discorria carinhosamente para ela seus conhecimentos míticos sobre o universo. No calendário Maia, o dia fora do tempo é um intervalo entre um ano e outro. É chamado de dia do perdão. “É uma generosidade consigo mesmo ter a chance de se limpar antes de começar um novo ciclo”, disse ele, enquanto ela tentava entender o termo “generosidade consigo mesmo”. Ele substituia o prazer do cigarro pós sexo por uma mini palestra sobre os mistérios da vida. Ela achava aquilo meio ridículo. Mas gostava.

– Chegou cedo.

Abraçaram-se desajetadamente. Não teve pôr-do-sol na praça naquela tarde por conta das nuvens. Não que isso fosse um presságio de que a relação não ia funcionar, mas estava tudo encoberto naquele 25 de julho.

– Linda.

– E aí?

– E aí?

– Credo, parece que faz mais tempo. – ela estava visivelmente nervosa e se sentindo extremamente ridícula pois se considerava pelo menos quinze vezes mais segura que ele – Caramba… Cereja?

Ele, com sua gentileza benevolente que era o disfarce perfeito de um apego feroz e irracional que tinha por ela, achou por bem perguntar:

– Como você tá?

Ela ficou com ódio, porque quem pergunta como o outro está obviamente está bem, ou seja, tão bem, que consegue até se preocupar com o outro.

– Uma merda. Volta pra mim.

Ele, feliz como uma criança perdida que recém encontra a mãe no supermercado:

– Pensa bem. Tem certeza?

– Absoluta.

E assim voltaram.

E não foram felizes para sempre. O Dia do Perdão serviu para que eles pudessem, mais tarde, perceber o que estava por trás de suas escolhas e, generosamente,  perdoarem-se a si mesmos.

Hoje eles postam “feliz aniversário” no facebook um do outro uma vez por ano.

FIM

 

 

 


Leve como domingo de manhã

É muito bom acordar com calor e barulho de ventilador de teto. É quase de tarde e o cheiro de café chega até a cama onde estou deitada, suando. Cheiro de café, vozes misturadas de pessoas queridas e música ao fundo é uma das receitas da felicidade. Ela se senta `a mesa, pensativa, e solta:

– E aí? Como faz?

Não tenho a menor idéia do que responder. Não é receita de bolo, nem de felicidade que ela quer (agora) mas de um roteiro de cinema. Entendo o conteúdo da dúvida e compartilho a sensação de incapacidade. Frustrante ficar imobilizado. Quando se tem apenas sensação líquida dentro do peito e se quer transformar em algo concreto, físico, como um texto, um quadro, uma escultura ou qualquer coisa desse tipo… é preciso ter um recipiente, se não a água não toma uma forma.

– Eu não tenho a técnica. Mas vai fazendo, que uma hora sai. – é medíocre, mas é tudo o que eu tenho a dizer.

Jack White canta na minha orelha alguma coisa interessante e bonita, que eu tenho dificuldade para decifrar mentalmente o significado. Não consigo entender letras em inglês. São partes diferentes do cérebro: a que sente e a que entende. Nesse caso é o contrário: o líquido entra por osmose pelos meus sentidos e depois eu tento colocá-lo no meu recipiente mental para entender. No caso do Jack, e da grande maioria dos artistas norte-ameticanos, existe uma técnica. Porque ter o peito arrebatado, ok, é uma coisa universal. A segunda etapa é arranjar um recipiente pro líquido e a terceira é passar para alguém beber. Então o líquido perde a forma novamente, dentro do organismo de outra pessoa, que mata a sede. Aí sim houve comunicação. Ao contrário de quando te jogam um copo cheio de líquido na cara – ou seja, a arte ruim, meramente emocional e pouco estruturada. Deu pra entender? Era isso que eu devia ter dito pra ela. Não que isso fosse indicar um caminho técnico pra qualquer coisa, mas pelo menos ia rolar uma empatia. Empatia é sentir pelo outro. É bom ser compreendido, né? Gostoso. É tipo chegar num beco sem saída com uma companhia. A alegria precisa de companhia para se manifestar. A angústia também? Não sei.

No chão, minha amiga olha uma Polaroid e pergunta quem é o cara na foto. Ele é loiro, tem um sorriso bonito e está meio gordinho, mas tem o corpo bonito mesmo assim. A outra amiga dobra um lençol com elástico. Dobrar lençol com elástico é mini-angústia. White Stripes já mudou de faixa e a amiga do lençol canta junto, enquanto a primeira se levanta para ajudar na missão-lençol. Mini-alegria compartilhada. Acho que ela e o loiro da foto têm futuro. Eu digo isso porque entendo dessas coisas, vai por mim – tento.

Está muito sol lá fora e eu sinto um misto de preguiça e prazer. Estou suando mais, mesmo com o vento virando na minha direção de tempos em tempos. Parece uma eternidade quando ele vai para o outro lado. Estou mole, Parece que estou de férias. Eu realmente estou. É que quando não se tem uma rotina fixa e árdua, as férias não têm a mesma sensação que tiveram em outras épocas. Oh, well. Estamos aqui, desta vez com quase 28, e isso me assusta um pouco.

Eu queria tocar bateria, como a mina do White Stripes. Mas não se pode ter tudo. É isso que os 28 vem ensinar. Tem uma foice que passa pra cortar aquilo que a gente plantou até agora. O que foi plantado vai ser colhido, o que não foi, já era. Mas pode ser bom fechar o leque. `As vezes ter menos opções é libertador. Outro dia eu tinha 22 e escrevia num blog cor de rosa, com nome falso. Eu tinha big-angústias. Hoje só de vez em quando, e umas minis.

Ele volta do banheiro e pergunta o que eu estou fazendo. Digo que estou escrevendo. Ele beija meu pescoço e vai não sei pra onde. Eu gosto dele e quero encher ele de mordidas. Alegria compartilhada.

Umas uvas sofrem no calor, lá fora, tentando atrair passarinhos. Eles devem ter mais o que fazer, porque não vieram comer as uvas, nem hoje, nem ontem. Eu também não comeria essas uvas se eu fosse um passarinho. Mas eu não sou, e também não sou ela, a que dobra o lençol. Sinto um misto de admiração, saudade e inveja pela vida tranquila e equilibrada que ela escolheu ter. Amigos igualmente sem família se juntam ali, no jardim da uva, aos domingos a noite para celebrar a liberdade de não ter TV a cabo, nem barzinhos com Valet, nem outras opções que nos afastam da simplicidade deliciosa. Ah! Que coisa boa!

Resolvo me movimentar em direção a algo, porque fico aflita com tanto prazer vindo do nada. Coloco coisas numa sacola e saio para ver o mar e desfrutar mais um pouco dessa plenitude em contagem regressiva.


O Batizado do Bebê Pecador

Originalmente postado em 10/12/2008

Chegamos atrasados, eu e meu pai – que por coincidência ou não – somos os únicos da família que não compactuam com os dogmas da Santa Igreja Católica. Uma pequena capela, no sítio da família da mãe da criança, era rodeada por parentes, amigos, vizinhos e chegados. Estava muito sol. Escolhi um vestido simples, florido e até o joelho, para ninguém comentar nada. Nem feio, nem bonito. Prefiro parecer invisível nessas ocasiões, já que nunca sei como me comportar em casamentos, batizados, crismas e velórios. Sou um pouco ignorante em relação à cartilha de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas sei que ele foi um grande cara, e por isso, jamais se incomodaria com regras de cartilhas que foram inventadas depois de sua morte por pessoas que pensam representá-lo.

Todos espremidos ao redor de uma mesa retangular, que o padre insistia em chamar de altar, suavam incessantemente e disputavam os banquinhos de madeira com minhas tias-avós que subiam neles para achar um ângulo melhor para a foto. Milhares de fotos. A era digital chegou à geração das bisavós. É que o bebê é filho do meu primo e inaugurou a nova geração da família. Foi abençoado na testa com uma cruz de água de torneira que se transformou em água benta ao tocar o fundo do cálice de prata:

– E QUE DEUS NOSSO SENHOR ESTEJA PRESENTE NESTA ALMA, QUE POR SER HUMANA, CARREGA EM SI O INSTINTO PECADOR!

– … Como? Como ele pode generalizar toda a raça humana assim? – murmurei para minha mãe.

– Shhhhiu!

– QUE NÃO SEJA DE TODO CORROMPIDO PELOS MALES QUE ESTA VIDA HÁ DE COLOCAR EM SEU CAMINHO! EM NOME DO PAI, DO FILHO……

…Eu imaginava os ossinhos perdidos de Jesus Cristo dando cambalhotas de aflição nas areias quentes de alguma caverna erma do Oriente Médio… DO ESPÍRITO SANTO, AMÉM!

Todos em coro rezaram uma Ave-Maria. Preciso estudar essa reza qualquer dia. É bonita, mas muito complexa. Me confunde. Como assim “o senhor é convosco”? O que é isso exatamente? E é “bendito sois vós” ou “sois nós”? Tão cheia de armadilhas quanto o hino nacional. Enfim, o brado retumbante do padre ofuscava como raios fúlgidos o pobre bebê pecador, que suava em bicas, chiquérrimo, num colete de lã.

– Veio de carola, hoje? – minha prima, sarreando meu vestido comportado.

– Ela está tentando se livrar dos pecados – se adiantou meu pai.

– Me livrar dos pecados? Não. Valeu.

– Não fala isso pro seu pai! – exclamou o próprio. – Eu fui coroinha na Itália. Fiz três missas em latim.

– É mesmo? Bom, deixa eu ver…Ah, eu entrevistei o Marky Ramone em ingles, ao vivo, traduzindo tudo na hora. Páreo duro, hein?

– Shhhhhiu! – reprimiu minha mãe, que neste dia resolveu representar a extrema-direita.

As mensagens do reverendo entravam pelos poros da minha pele. Comecei a suar mais. Duas meninas cantavam em coro ao fundo, acompanhadas por um violão. A temperatura subia. Uma abelha tentava entrar na boca do padre, que falava em confirmar o batismo, em cordeiro de Deus e até nas próprias abelhas, tentando integrar seu discurso à situação constrangedora de se ter uma abelha rodeando a própria boca ao falar em público. Muito habilidoso.

Comecei a ficar com dor de cabeça e a pensar num cordeiro assado. Aquilo não acabava nunca. Muita fome. Trinta minutos, quarenta minutos, uma hora. Socorro. Meu pai cochichava com meu tio que dormia, minha mãe reprimia com shhhius e shhhius, minha prima zombava da minha roupa e as velhinhas clicavam tudo. No fundo, todos ali tinham uma válvula de escape. Até o bebê, que suando horrores para expurgar com antecedência seus primeiros pecados, se entretia com um graveto. Só me restou desmaiar.

Acordei num sofá. Pessoas me cercavam, inclusive o padre, que não estava mais de batina, mas `a paisana, segurando um prato de arroz com salada. Não foi nada, não foi nada.  Foi só o calor. Todos almoçavam e bebiam refrigerante ou vinho. Era disso que eu precisava. O bom e velho sangue de Cristo. Aleluia!


NOITE QUENTE EM FLORIANÓPOLIS

originalmente postado em 09/02/2009 – 17:43

As gravações do Notícias de Verão terminaram agora em fevereiro. Eu e a equipe ficamos em Florianópolis por um mês e meio, trabalhando, mas também curtindo o dia… e a noite. Não, não é o que vocês estão imaginando. Nada de baladas homéricas nem bebedeiras sem fim. O buraco era mais embaixo. Segue um conto que escrevi no ano passado em homenagem aos amáveis vizinhos de quarto. Seres altamente inescrupulosos e endemoniados.

BLAAAM!!!
 
Eu já estava quase dormindo. Violentamente, bateu uma porta que foi esmurrando átomo a átomo até o impacto repercutir dentro do meu cérebro adormecido. Acordei em estado de sítio, achando que um tsunami estava derrubando as paredes ou que era um pesadelo dos mais terríveis, mas não. Era muito pior do que isso.

Ao lado do meu quarto existe um outro quarto. Há uma porta que conecta um ao outro. Ela fica o tempo todo trancada. Ora, os hóspedes vizinhos e eu não mantemos nenhuma relação de intimidade, certo? Mais ou menos.

A porta, por ser mais fina do que o concreto da parede, conduz o som com grande facilidade. Estou no quarto sozinha, solitária, e por conta da fina porta, agora tenho o privilégio de me sentir praticamente parte deste adorável clã portenho que resolveu visitar o Brasil neste verão. Muita alegria e descontração durante o dia. E também durante a noite. Hoje eles chegaram um pouco tarde. Talvez não seja tarde para quem está de ferias como eles. É que infelizmente eu não estou, não é mesmo?

Com grande estardalhaço e animação, quase arrombaram a porta do elevador no terceiro andar do hotel. A Família Buscapé dos Pampas com a qual sou obrigada a compartilhar momentos indoor, estava hoje com a pá virada. 
 
Eles entram gritando. Rindo. Pulando. Passam pelo corredor escuro como quem passa pela Sapucaí lotada. Entram no quarto tão sutilmente quanto um esquadrão anti-sequestro invade um cativeiro. Pelo som, são cinco pessoas. Mãe, pai, filha, filho e outro filho. Talvez mil filhos que se multipliquem como gremlings. Só que em vez de água, eles reagem ao som. Quanto mais alto, mais eles se tornam. O pai grita com a mãe. O filho grita com o outro filho e a filha grita porque ninguém grita com ela.

BLABTBLAAAM! CRRROOOOOOWWWWSHHHHHHH

Eles parecem ter derrubado o armário. Ou levantado a cama de casal, todos juntos, e jogado para cima para vê-la cair e abrir um buraco no chão. Deve ter sido hilário porque todos riem como loucos. Parecem bêbados. Inclusive as crianças. Principalmente as crianças. O pai está bravo. Ele agora grita mais grosso com a mãe. Deve estar arrependido por ter embebedado as crianças. Eles falam em espanhol.

Ligo para a recepção.

– Iago. Boa noite.

– Oi. Aqui é do 303. Estamos com um problema. Eu e o andar inteiro…

BLAM!!!!!!

– Você ouviu? Estão tentando destruir o quarto ao lado do meu. Uma família, eu acho. Ou talvez uma gangue. Eles gritam em espanhol e arrastam móveis. Existe máfia na Argentina, Iago?

– Não saberia informar, senhora. Mas vou mandar o segurança verificar qual é o quarto em questão.

CRRROOOOOOOWWWPPPPAAAAAWWOWOOOWOWOWOWOOW
HAHAHAHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
HAHAHAHAHAHAHAHA

E berravam e brigavam uns com os outros, cada vez mais alto.

– Ele vai precisar de bombas de gás, Iago.

Desliguei. Começaram a surgir gaps de poucos segundos entre um atentado aos móveis e outro. É sempre assim. Eles vão parar bem na hora que o segurança chegar e vão continuar assim que ele se for.

Bingo. No curto espaço de tempo em que o segurança perambulava pelo andar, os circo de pulgas gigantes milagrosamente silenciou. Tentei aproveitar a bênção divina para pegar no sono, rápido, mas incrivelmente fui impedida pelo canto desesperado de duas gaivotas.

– Silêncio, criaturas! Isso não é hora de pássaro estar acordado! 
 
E nem de quem vai trabalhar cedo.

Liguei de novo.

– Iago, boa noite. Aliás, boa madrugada. Eles acordaram os pássaros também. Você tem o telefone do IBAMA?

– Desculpe, senhora…

– Se eles continuarem assim, vão acordar todo o hemisfério ocidental, que deveria estar dormindo enquanto ainda é noite. Nem todos estão de férias neste hotel, Iago. Será que vamos conseguir resolver isso antes do sol raiar?

A algazarra se alastrou ainda mais. É lógico, não é uma família iniciante. Eles têm um radar que capta a presença de seguranças, e misteriosamente só eu ouvi a baderna. Ninguém mais. Não havia maneira de dormir. Tentei de tudo. Até o barulho do ar condicionado tentou me ajudar, mas não foi suficiente. As gaivotas estavam a mil e também contribuíram para a noite insone. 
 
Hoje vou tentar encontrá-los na praia. Se nessa noite rolar outra festinha, que pelo menos me convidem!

por @LuMicheletti