A única coisa que não pode

Eu disse pra ela que não tinha nada de místico. Eu tinha que dizer, ou ela não iria comigo.

– Só tem uma regra: não pode revelar o mantra – expliquei, mesmo sem ter noção do porquê – O pessoal lá fala em resultados, resultados, resultados e gráficos cartesianos. Ou “seje”, o bagulho é bastante objetivo. Eles usam gravata, são calminhos e sorriem bastante. Eles falam o tempo todo em efeitos regenerativos e usam palavras difíceis que a gente `as vezes não entende, mas que os médicos e as pessoas da ciência gostam e por consequência a gente se sente seguro quando ouve, e certamente depois de uma semana de aula nós vamos regenerar várias coisas, inclusive nosso próprio vocabulário e ficaremos não só mais tolerantes e compassivos quanto inteligentes. Me encontra lá `as oito? Beijos.

Talvez por conta desta argumentação, feita via gtalk, a Mariana tenha topado ir. Ela é gêmeos com gêmeos, ou “seje”, jamais entraria num lugar onde alguém diz que vai mudar sua vida usando bata, ou com algo colado entre as sobrancelhas, e dizendo o que você pode ou não pode fazer para atingir um estágio mais evoluído de existência. Ah, só tem uma regra: não pode revelar o mantra.

A Elisa topou mais fácil porque ela é peixes com sagitário, então foi só proferir as palavras “meditação transcendental” para que, sem grandes questionamentos, ela fosse nos encontrar meia-hora antes do combinado para bater papo com o pessoal de gravata e sacar o feng shui do lugar.

A única coisa que não pode é revelar o mantra. Eu já disse isso, eu sei. É que eles repetem algumas vezes. Como um mantra. O mantra é uma palavra em sânscrito que você fica repetindo mentalmente. É uma palavra que não significa nada, tipo “geléia”, só que eu sânscrito. Cada um recebe um. E eles reiteram para você entender: não significa nada. Por isso não questione. Não quer dizer nada. Mesmo. E aquilo te faz não ter mais insônia. Nem medo, nem depressão. E ser feliz pra caramba. E pensar num coelho branco e resolver um roteiro empacado e ganhar o Oscar. Coisas assim. Aí você leva uma fruta e umas flores no primeiro dia, só pra constar e pronto. Só não pode revelar o mantra.

No segundo dia recebemos o mantra, que é uma palavra que não significa nada. Nada mesmo. Só não pode contar pra ninguém. Adoro segredos. Nunca guardei um. Talvez isso devesse ser um segredo, mas a verdade é que acho muito difícil manter uma informação guardada só para mim, então dou sempre um jeito de dividi-la. Mas desta vez eu estava disposta a obedecer.

As pessoas céticas sabem guardar segredos muito melhor do que as que crêem em coisas. Os céticos limam o mistério da vida porque têm urgência em obedecer a alguma verdade ou regra. Talvez os céticos não suportem a própria grandeza e infinitude e precisem se agarrar a alguma ilusão de fim.

Os primeiros dias foram incríveis porque eu não questionei nada e realmente minha ansiedade baixou a zero e eu estive em Júpiter e vi coelhos lindos, até que fui jantar com a Elisa, que é uma pessoa que crê em coisas. Ela colocou o mantra no google. Sim, MEU DEUS, ela colocou o mantra no google. A Mariana não, mas a Elisa sim, e ela descobriu que o mantra é (PAUSA DRAMÁTICA)… a invocação de uma entidade divina hindu que vem para curar nossas mazelas. (PAUSA). A entidade é tão maravilhosa que ela pensou em tatuar ou fazer um poster pra botar no quarto. Se cada um tem um mantra, cada um tem uma entidade que precisa invocar e eles descobrem isso pela cor da fruta que você leva no primeiro dia. Claro, esse pessoal de gravata acha que engana a gente com esse falso ceticismo? Eles pedem frutas e flores para lerem a nossa alma! Óbvio, o universo é muito maior e as dimensões espirituais estão presentes em tudo, não me venham com gráficos cartesianos. Claro, entendi. Eles estão querendo fazer o bem a qualquer custo, por isso se disfarçam de céticos para atingir os próprios céticos, genial, e quando chegam em casa a noite eles colam coisas entre as sobrancelhas e comem comida orgânica e rezam. Eles na verdade são hippies disfarçados de cientistas.

Cheguei em casa e dei um google no mantra. A única coisa que não pode é mexer com o mantra. Ah, mas não pra mim, vai, porque eu já entendi todo o esquema.

No dia seguinte fui meditar e fiquei pensando no google. Depois na culpa de ter botado o mantra no google. E depois no que iria dizer para o orientador sobre ter desobedecido a única coisa que não podia, e na possível reação negativa dele. Não vi mais coelhos nem oceanos, nem estrelas, nem nada. E não transcendi. Nem no outro dia, e nem no outro. Fui corrompida pelo meu excesso de crença. Ou pela minha falta de fé. O que dá na mesma.

Aí fui confessar para o homem de gravata que eu violei a única coisa que não podia. Ele riu e disse para eu continuar meditando.

 

 

PS – anota aí meu mantra: é…. (nããão pode contar!)

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