Quando parei de pisar em conchas

1,67 mil anos-luz de altura de pura inconsistência. Pés e cabeça nunca haviam estado tão longe um do outro. Uma cabeça oca flutuava no espaço, além da estratosfera. Mas sem se lembrar dos pés, que lá embaixo, num planetinha simpático (visto de longe), pisavam conchas molhadas, mas sem sentir nada. Porque estavam de tênis. O cadarço desamarra. É dos meus pés que estou falando. Abaixo e percebo que as conchas têm mais ranhuras do que eu imaginava lá de cima. Que dúvida. A mesma que alguns astronautas devem ter. Muitos se confundem com o espaço. Sem sentir gosto, ouvir vozes ou sentir cheiros, imersos numa noite que não acaba, decidem nunca mais voltar. Como a cachorrinha, que no fim das contas, encontrou um planeta melhor para viver. Será que é porque lá os cães não são tratados como cachorros, ou porque ela não foi obrigada a se lembrar dos próprios pés já que não usa tênis que desamarram? Eu resolvi ficar neste planeta mesmo. Foi uma opção, consciente ou não. Gostaria de ter encontrado alguém para conversar, mas não havia ninguém ao meu redor, só conchas.

Tentei acreditar que era a sola do sapato que quebrava as pobres conchas, não eu. Porque era hmmmm delicioso demais para confessar. E triste. Talvez se não fosse triste eu confessasse. Coisas deliciosas e tristes são as mais inconfessáveis. E fazia crec-crec, enquanto a outra extremidade procurava um planeta que não existe. Neste planeta, as conchas não seriam tratadas como conchas. E, se naquele momento, eu tivesse consciência de que faço parte disso tudo, talvez eu não estivesse pisando nelas. Eu estava quebrando as minhas companhias por causa de uma lacuna bege e apática que me cercava em rodamoinho e me hipnotizava para trocar meu coração por uma chave de fenda. Eram abelhas transparentes que zuniam alto e me faziam surda e sonolenta. Havia brechas, intervalos de minutos contados ao contrário, que era como um fogo frio meio azulado.

Na época eu estava lendo um livro que contava a história de um cara meio maluco que dizia ter tido contato com um planetinha–micro chamado Tralfamador. Era quase tão insignificante para o universo quanto a Terra, não fosse pelo fato de ser povoado por seres bastante evoluídos. Criaturas interessantíssimas e bastate sábias. Eram extremamente desapegados e entendiam que o tempo não é linear como um colar de contas. Para eles, tudo aconteceria ao mesmo tempo, logo, não haveria motivo para se abalar com coisas ruins. Esses serezinhos não se irritavam nem se entristeciam com nada, porque sabiam que qualquer coisa é apenas uma fatia da realidade infinita. Percebi que não precisava me aborrecer com a falta de tônus, pois em algum lugar nesse mesmo tempo, eu haveria de estar completa.

Aos poucos as brechas foram aumentando. Como se eu pudesse negociar. Eu estava ganhando credibilidade. Estou de tênis, e isso não me parece justo. Elas estão nuas. E quebram sob meus pés, chiando crec-crec – o que pode ser uma justa reivindicação vinda do cálcio duro, que, caso obtivesse os mesmos direitos que eu, no mínimo perfuraria a superfície da minha sola. As conchas são tão perfeitas que devem ter um pensamento muitíssimo organizado. Quem mais na natureza consegue se manter em ordem e harmonia assim? Um invólucro feminino, acolhedor, tão delicado quanto resistente? Os ovos? Talvez. Até nascer alguém de dentro deles, ou serem pisados por pés calçados. Porque tudo é cíclico. E “assim por diante”. É genial como o Kurt Vonnegut coloca essa frase tão banal no meio dos parágrafos e funciona tão bem.

Tenho medo do julgamento das conchas. Elas parecem levar tudo a sério demais, e no fundo, ter muito mais consistência na vida do que eu. Por isso estou tentando destruí-las. Não suporto este crepúsculo límpido que me esfrega na cara um universo infinito de possibilidades que ignoro. Abdico porque estou imersa demais em bobagens, olhando demais para o chão para perceber os pontinhos prateados que salpicam devagar, um de cada vez, no céu. Cada um é uma possibilidade negada que acontece ao mesmo tempo em minhas vidas paralelas, diriam os serezinhos daquele outro planeta. Eles se diluem num oxigênio azul-escuro que quase anoitece, mas não esquece, antes, de me lembrar, com um mini estardalhaço alaranjado, de todas as outras vidas que eu poderia ter tido, mas abdiquei por preguiça de imaginar. Em vez disso continuei a pisar em conchas. E elas continuam surgindo, uma a uma, em fade in, se fazendo de reais e paupáveis até serem desmascaradas pelo sol que volta no outro dia.

Desejos gasosos sopram de um lado a outro. Vão embora. Depois voltam. Assombram e cobram o que deveria ter sido feito e não foi. Estrelas não são nada sem conchas. Sonhos não são nada sem estrutura. Urano não é nada sem Saturno. Quebro as conchas embaixo para não olhar as estrelas, que do alto, me acenam com os sonhos que não ouso. Enquanto caminho em busca de conchas mais graúdas, o mar que vem e vai reflete uma lua redonda que vai me seguindo pelo chão. A lua me vigia como um espelho gigante. Me ajuda a lembrar de tirar os sapatos para sentir realmente o quanto o cálcio é duro.

Chega. Num susto (surto), parei de pisar em conchas.

(O livro que citei é Matadouro 5, do Kurt Vonnegut)

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2 Comentários on “Quando parei de pisar em conchas”

  1. emersonromani disse:

    Que bom que você voltou Luisa!

  2. Samuel disse:

    É, o problema é não ter a consciência de que estamos no mesmo chão que as conchas, e ao mesmo tempo tão perto das estrelas, tanto quanto nossos pés (estão próximos) das conchas, colados nelas, por vezes pisando nelas, e nem estamos vendo. Às vezes também estamos estourando as estrelas com a cabeça e nem nos damos conta.

    Adoro seus textos, você manda bem demais, Luisa.
    Beijos


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