Malu pela janela

Há séculos que eu não tinha vizinhos. Assim, de porta. Porque agora eu moro numa casa de novo e tem vizinhos de todos os lados – dos lados e nas costas. E tem uma criança que está querendo muitas coisas toda hora. Muitas, muitas, muitas mesmo. Eu percebo que a mãe tá desesperada para resolver porque assim a paz volta pra todo mundo, inclusive pra mim que to tentando escrever umas coisas. Consigo entender mais ou menos umas frases tipo “o tio vai…” “vai lá…” “lindoooo” e umas palavras meio nada a ver que vão se juntando aos poucos que nem uma música que vai revelando cada instrumento. Só que é uma melodia meio sem pausa, que vai batendo rápido  – não sei se é o meu bairro que é quieto demais ou se é São Paulo que esvaziou de repente, mas agora existe som de gente, bem louco isso né meu (Meu, não posso acreditar que escrevi isso, e li agora, depois de duas semanas, fez mais sentido do que nunca). E o que que entra pela janela de madeira, é o que dá pra entender, né. Eles são os vizinhos dos fundos – que plantaram a tal da trepadeira que que vem por cima da cerca e cai no meu quintal e deixa coisa toda mais verde, né a cor verde é demais que dá pra ver da janela de madeira que falei agora. A mesma que me apaixonei em abril, porque ela abre de cima a baixo, e por causa dela resolvi que tudo ia ser novo mesmo, a do meu quarto. Mas tudo tem um preço. Inclusive pra tadinha da Manu, putz, é MALU, que teve o nome pronunciado pelo pai agora tão forte que deu total pra entender, até pra corrigir depois. Ela quer simplesmente comer a sobremesa antes do almoço, só isso, só isso, porque é sábado e sábado poderia poder tudo, não é mamãe, né mamãe, fala, fala mamãe, e a mamãe está irritada não só com a insistência da coitadinha da Malu, mas pelo tom de voz do pai da criança, com quem eu resolvi me casar e deixar de priorizar, pelo menos “temporariamente” o que tava em jogo na minha vida naquela hora, e todos os esforços que eu tinha que ter feito para que as coisas acontecessem, mas eu não achei que era tão assim e com a fecundação do óvulo, meio que sem querer querendo ficou tudo mais difícil ainda e agora o cara está chateado em descobrir que tem que tomar umas providências chatas pra caramba do tipo chamar o carroceiro depois de ir no Ceasa cedo porque ela não é minha mãe e eu sou tipo um homem feito agora, de quase quarenta anos. Só que é foda, porque eu ainda acho que eu podia ter feito uma escolha melhor. E ela também.

(Isso é apenas um exercício de liguagem inspirado nas aulas que estou tendo com o dramaturgo Leo Moreira. É uma tentativa de reproduzir a maneira como eu falaria de fato esse texto – e no fim uma experiência de mudança de pessoa)
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4 Comentários on “Malu pela janela”

  1. Andreas Mann disse:

    1 ano depois… rs

  2. Lucia Gonçalves disse:

    Vi uma janela de madeira emoldurando a tal da trepadeira. Tudo verde. Um quadro bem no meio da parede do quarto.

  3. Interessante. ‘Sem edição’ você parece muito mais sem vírgulas. [rs]

  4. PS: Aliás, parece muito mais com vírgulas e com menos pontos finais, foi isso que eu quis dizer, você entendeu, né. [rs]


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