Kirk Hammett, o salvador do carnaval

Amigos, escrevi essa crônica em 14/10/2008, em Londres. Era verão, eu estava de férias com meu amigo Zé Antônio, e ele conseguiu que a gente fizesse uma entrevista com o Kirk Hammett, do Metallica. Eu estava animada, não fossem alguns problemas. Era carnaval.

Saio de casa acompanhada de duas meninas que nunca vi na vida e de uma cólica tenebrosa. Agosto. Carnaval? Não entendo. Inverte o hemisfério, inverte tudo? Resisto. Fui porque insistiram. Eu queria ter ficado em casa, esperando o Zé ligar e avisar a hora da entrevista. Tarde demais. Gostaria de conseguir me dissolver na água, junto com gotas de buscopam e ficar dormindo no fundo do copo. Infelizmente eu não tenho remédio.

Nada funciona neste dia porque hoje pode ser profano sem ir pro inferno. A celebração da carne anima jamaicanos, latinos e ingleses mais bronzeados. E a tal da festa acontece num bairro que, até então, eu só tinha ouvido falar em nome de filme.

Chegamos em Notting Hill e o pseudo-carnaval bombado e inimigo do bom gosto já deixa rastros no chão: plumas e purpurina suja junto com restos de carros alegóricos que já no próprio desfile vão caindo aos pedaços. Coisa pra gringo ver. De qualquer jeito, acho que eu era a mais negra de todas. Sem brincadeira.

E fui parar não sei como com aquele copo cheio de café na mão. Ponstan até tinha, mas esse, se eu tomar empacoto. Tenho comichão. Na real, preferiria o ponstan do que ter vindo parar aqui. Tem um aparelho de som novo e gigantesco numa prateleira frágil de madeira que treme insegura a cada batida da axé music que rola no talo. Juro por Deus. O som não foi tirado do plástico e nem vai ser. Assim deve ser mais chique.

Não sei de quem era aquela casa, se era da “loura” cinquentona de piercing no umbigo que rebolava até o chão com uma sandália plataforma de madeira ou do rapaz com a camisa do Fenômeno que se esgoelava pela cozinha. Descobri porque os paquistaneses da imigração fazem tantas perguntas para os brasileiros que desembarcam em Heathrow. Os caras infernizam geral. Mas pelo menos me deram esse café que esquentou meu útero em contrações.

– Obrigada, senhora. – para a provável mãe da “loura”.

Uma querida. Tinha um cachorro minúsculo que se enroscava aos seus pés enquanto ela fazia mais café. Menor que um rato. Nunca vi.

As duas meninas, que eu custava a memorizar os nomes, já suavam de tanto sambar em frente a casa, por onde passavam os blocos. Minha cólica piorava sempre que eu olhava para fora. Achei melhor olhar os bibelôs da sala. Estatuetas de santos, quadrinhos, pratos pintados, miniaturas, anjos de porcelana. Como será que esse pessoal trouxe tanto cacareco na mala sem quebrar? Tem perguntas que simplesmente não têm resposta. A gente tem que aceitar isso na vida. Principalmente em dias como este.

Ufa, tocou meu celular. Aleluia, a entrevista com o Metallica vai ser mais cedo. Ok, to indo.

– Gente, desculpa, a festa tá boa mas eu tenho que ir! Tchau!

Anúncios