Fé é algo a ser exercitado.

Concluí a frase antes mesmo de refletir sobre ela, e por isso mesmo, acredito que esteja certa para mim. Veio da barriga a certeza. Para alguns, ela nasce com a gente: não se questiona a vibração acima da cabeça. Ela nos conecta ao invisível, concretíssimo, tão concreto quanto o mundo físico. Para outros, a carga religiosa da palavra gera uma série de fragmentações mentais, julgamentos, desconfianças e raciocínios lógicos que justamente por estarem presos `a mente (ego), não se abrem para perceberem a gigantesca diferença entre religião e espiritualidade. 

E daí?

Estou tomando um chá um pouco sem gosto.

E estou com sono.

 Vi dois filmes recentemente que me fizeram pensar sobre qual é o real (e útil) significado da fé.

Um deles leva a fé no sentido religioso. O outro, no sentido espiritual. 

A Árvore da Vida, de Terence Malick, fala sobre a relação de poder entre um pai e um filho, a perda de um ser amado e o desejo de perdão e redenção. Mostra também dinossauros, chamas queimando, versículos bíblicos e muitas imagens legais estilo documentários da BBC. Da hora. Mas o fundamento da história me preocupa um pouco. Malick nasceu no Texas, nos anos 40. Seus filmes costumam trazer uma forte carga religiosa. Religiosa no sentido institucional mesmo.

As mensagens são várias, desde “até os ‘bons’ sofrem”, “o importante é o amor”, até “perdoe”, etc. Todas elas ilustradas imageticamente de uma forma bem simples de entender (tipo negros e brancos dando as mãos, mães ruivas e lindas com vestidos esvoaçantes e pessoas se reencontrando na praia).

O maniqueísmo religioso conduz logicamente ao seguinte raciocínio: se eu sou bom, eu mereço. Se eu fizer o bem, eu serei salvo. E assim, promove mais e mais a repressão da sombra, ao invés da aceitação (e integração) dela.

Ninguém é inteiramente bom, nem inteiramente ruim, certo? A bondade da mulher ruiva (Jessica Chastain) no filme é utópica e idealizada. Todo mundo tem dentro de si potencial de desenvolver a luz e a sombra, e quanto antes a gente aceitar a condição humana, melhor. Momentos de instabilidade geram medo, e logo, precisamos nos agarrar a alguma certeza. Os Estados Unidos, com tanta crise séria, se vê caindo, desestabilizando junto com essas certezas frágeis. A necessidade de ser “perdoado” aparece no incosciente coletivo. Aí, um filme bem emocional para todo mundo se sentir acolhido e perdoado vira hit. Afinal, fomos “bons” e fizemos o “bem” a vida inteira, certo? Não é justo sofrermos! Segundo essas regras, não. É que infelizmente elas não são reais. Para o senhor Malick, difícil lidar com isso aos 70 anos, eu imagino.

 É por um caminho mais concreto que se desenha a fé representada em Melancolia, de Lars Von Trier.

É um pássaro? É um avião? Não, é um planeta, fudeeeeu!

Claire (Charlotte Gainsbourg) vive um casamento desses estruturados em muitas coisas materiais, filho, propriedade, etc. Ela canaliza sua ansiedade organizando coisas. Está sempre pensando no futuro ou no passado. Justine (Kirsten Dunst) parece que vai seguir o mesmo caminho, não fosse por uma capacidade especial de “prever” coisas. Na noite de seu casamento ela vê um planeta diferente no céu e entende que tudo vai acabar. Antes que tudo acabe, ela acaba com tudo: seu casamento, suas relações, sua vontade de viver, e entra em depressão. Porém, aos poucos, Justine vai se reconstruindo, encarando a verdade que está por vir. Verdade esta que Claire e seu marido não conseguem aceitar. Justine passa o filme inteiro se estruturando para morrer, e faz o que pode para lidar com a verdade. Claire não consegue aceitar a verdade e na hora da morte está totalmente sem estrutura. Para Lars Von Trier, a fé está ligada `a conexão com a sua própria verdade.

 Engraçado. A vida só dá duas certezas pra gente.

 1)    A gente vai morrer.

2)    TUDO é transitório. A alegria passa. A tristeza também passa. Até a uva passa.

E essas únicas certezas não são lá muito reconfortantes, néam? Então não é melhor viver de acordo com as próprias verdades e responsabilidades em vez de cobrar alguém pela sua recompensa? Recompensa? Se você faz o que quer, o que gosta, a recompensa é aqui e agora. Deixa Deus em paz, pôam. 

 

Beijos ❤

@LuMicheletti

 

PS – Para quem for ao cinema em busca das referências arquetípicas da “árvore da vida” que a cabala faz, pode tirar o cavalinho da chuva, porque não tem nem cheiro.

 

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8 Comentários on “Fé”

  1. Lucia Gonçalves disse:

    Pra mim, fé é acreditar. Sem essa religiosidade toda, somente acreditar.

    Ex.: Eu tenho fé que meu time vai ganhar o campeonato; Eu tenho fé que minha insônia, um dia, vai passar (algo não transitório, mas eu tenho fé)…

    Beijos!

  2. Samuel disse:

    Não entendo a separação que vocês fazem de religioso e espiritual sendo que ambos os termos significam a mesma coisa. Em outras palavras, o ‘espiritual’ é tão indesejável quanto o ‘religioso’. Na verdade são sinônimos. Aliás, o termo ‘religioso’ é mais aceitável se você for pela etimologia das palavras. ‘Espirito’ vem do latim, significa ‘respiração’, se for ver é algo muito mais dogmático e falso do que o outro termo, porque o contexto no qual ele é empregado hoje em dia foge totalmente do significado original. Eu me tornei cético até a medula quando realizei essas verdades. Não há nada além da respiração automática funcionando a máquina, quando ela cessa a máquina pára e continua na natureza, quebrada em seus elementos constituintes. Nesse sentido, é o corpo e não o espírito (que não existe) que é imortal. Foi a crença religiosa que cunhou o termo ‘espírito’ (e derivações) e tempos depois deu a ele o significado falso de entidade que seria a pessoa em si, que sobreviveria ao corpo. Balela. Portanto, essa separação, essa divisão toda que o povo new age inventou não faz sentido. Aliás, nada faz sentido quando o assunto é espiritualidade. A não ser para quem empregue o termo no simples contexto de ‘respiração’ mesmo, o que é raro de se ver, salvo no caso de alguns jnanis indianos que conheci e alguns psicologistas com os quais conversei. No fundo, religião/espiritualidade é isso mesmo: dividir, criar problema, o oposto de tudo que a imagem da coisa faz parecer que ela é. A linha da trajetória espiritual sempre culmina no oposto do objetivo inicial. Tal processo divisório acaba causando tudo aquilo que ela promete eliminar no começo. As pessoas vão selecionando isso e aquilo, separando isso daquilo, até que chega em um ponto no qual já se tornaram preconceituosas, separatistas mesmo, o oposto do que deveriam ser, e nem se dão conta disso. A solução é o problema. Sem espiritualidade, sem problema espiritual. Simples. “Drop the path”.

    Discordo da primeira das duas certezas. Porque, sendo o corpo imortal e não havendo entidade alguma na máquina, conforme expliquei acima, morte não existe. Com a segunda certeza concordo, nada é permanente. Mas discordo também do lance de deixar Deus em paz. Aliás, concordo que ele deva ser deixado em paz mas justamente porque discordo da existência dele; portanto é irrelevante falar sobre algo que não existe mesmo, o melhor a fazer é deixar de lado. Concordo discordando, hehe.

    Após 25 anos de busca (dos 5 aos 30), essa realização me atingiu feito um relâmpago – tudo aquilo que dão como certo no sentido espiritual, que dizem existir além do físico, é falso, não existe, não há nada pra coisa toda. Claro que você não tem que acatar o que estou dizendo, cada um deve buscar por si mesmo, como você bem disse; cada um só tem como experienciar a realidade segundo o próprio conhecimento acumulado que tem, o que a torna relativa. Mas, descobri por mim mesmo e para mim mesmo que tudo o que eles dizem que existe no sentido espiritual é algo existente apenas na mente dos que acreditam e propagam tais idéias, mas se você pegar e procurar se de fato tais coisas existem, você ficará muito surpresa por constatar que elas não existem além do pensamento. Nova York existe no pensamento de alguém, mas se a pessoa for em busca de Nova York ela vai encontrá-la, por mais que a cidade seja diferente do que foi imaginada. Mas, se você procurar por qualquer coisa daquilo que os caras no mercado espiritual dão como garantido, você não consegue nem mesmo uma comprovação estatística que seja, quanto mais provas. E aí fica fácil entender quem inventou Deus, a fé etc e com quais objetivos.

    O homem inventou Deus a partir do medo, então o problema é o medo e não Deus. E não há como se livrar do medo, sendo que o medo é a pessoa. A própria coisa aí lendo essas palavras é você, a pessoa, aquilo que chamamos ‘eu’. Tudo o que dizem que ela é é ‘sobre ela’ e não ela de fato. Conceitos apenas.

    Para mim, o único significado da fé ou força de vontade, como prefiro chamá-la, é que é através dela que conseguimos tudo, que realizamos tudo em nossas vidas. A força de vontade é algo extremamente poderoso, inclusive é ela mesma com seu tremendo poder que mantém bilhões e bilhões de pessoas crentes piamente em espiritualidade e tudo mais. As pessoas falam da fé/força de vontade como se fosse algo separado delas, mas a força de vontade é o pensamento, é a pessoa, é a coisa experienciando através da máquina orgânica. Não há como ter uma sem a outra, são a mesma e única coisa. Não há como ter batimento cardíaco separado de coração, respiração separada de pulmões, software separado de hardware. Do mesmo modo, é possível haver ‘espírito’ separado do corpo? Poderia o software sair vivendo livremente sem o hardware? Se fôssemos algo que pudesse se descartar do corpo e continuar mesmo sem ele, poderíamos fazer isso enquanto vivos, e tudo o que existe de relato na área de ‘experiência fora do corpo’ etc é o pensamento dizendo que ocorreu, a pessoa acredita e teima em dizer a si mesmo ‘claro que existe!’, porém ela experienciou enquanto viva, o pensamento ainda estava lá, até porque se não estivesse não haveria experiência alguma, mas se procurar saber se existe de fato tal coisa, a conclusão será um tanto quanto decepcionante para quem crê, no mínimo decepcionante. Mas é a real. E digo felizmente é a real. Thanx God não há ‘depois’, ‘além’ etc. Thanx God essa vida é a única.

    Beijos

  3. É,a fé é a base da vida.
    Vi um filme ótimo.É emocionante.Se chama “Minha Vida em Outra Vida”,já viu?Se não,Assista.Vale apena.

    abraços……

  4. Samuel disse:

    Luisa, quando puder, veja esta entrevista aqui, acho que você vai gostar, ó:

    Bjs

  5. Sydney disse:

    Ainda estamos todos interpretando tudo de acordo conosco mesmos… e sem perceber isso.

    Caraca, Samuel, mandou bala! Me lembrou um dos gurus que seguem a linha Ramana Maharshi.

    “…o pensamento ainda estava lá, até porque se não estivesse não haveria experiência alguma, mas se procurar saber se existe de fato tal coisa, a conclusão será um tanto quanto decepcionante para quem crê, no mínimo decepcionante. Mas é a real. E digo felizmente é a real.”

    E Jiddu bate na mente como ninguém :p

    Essa semana vi uma frase do Che “Não quero nunca renunciar à liberdade deliciosa de me enganar.”
    E tem acontecido muitas vezes nos meus períodos de mais presença, observando alguns padrões de pensação..rs

    Lu, faltou a 3ª certeza. A de que vamos pagar impostos…rs;
    No mais, captei seu ponto de vista.

    PS: Eai, esquentando as mãos pra ver quem a Sra. irá entrevistar no Rock In Rio?!!

    bjok’s 😉

    • Samuel disse:

      Nossa, só hoje/agora que vi isso, Sydney! Hehe. Tipo, ‘um ano depois…’, aí vem a resposta, heh. Então, mas o tiozinho do vídeo é o U.G., não o Jiddu. Embora tenham ‘crescido juntos’ na Sociedade Teosófica, da qual o vô dele era um dos cabeças lá, o U.G. nada mais teve a ver com o Jiddu depois que viu que ele era falso. Aliás, todos aqueles gurus famosos da época, U.G. passou por todos eles, e pegou todos, sem exceção, no flagra, fazendo algo que recomendavam veementemente aos outros que jamais fizessem. Foi aí que ele começou a ver que nenhum deles vivia o que recomendava pras pessoas, eram uns hipócritas, e isso o levou a buscar as respostas por si mesmo.

  6. pedro_ishi disse:

    como a dualidade da luz que só existe por causa da sombra, do dia que corre em direção a noite, pergunto: existe a fé sem que exista o medo? e o medo, depende da fé para existir?

    • Samuel disse:

      O medo é a pessoa, não são duas coisas separadas, a pessoa e o medo, mas sim uma e a mesma. Fé, medo etc e a pessoa são a mesma coisa – pensamento – interferindo no corpo. Se o medo se for totalmente, morte clínica ocorre. O medo é tudo que há aí. Medo ou fé, ou luz, ou sombra etc. São a mesma coisa, é tudo o pensamento. A pessoa é o pensamento e é o pensamento que cria a dualidade e a separação toda, mas na verdade não há separação alguma. É o pensamento que interpreta a si mesmo desse modo, com essas divisões. Essa é a ilusão. É só deixar o medo rolar que uma hora ele cede, assim como se você deixar um jarro transbordar não terá mais como ele se encher novamente. É aquilo do qual queremos nos livrar a própria coisa que pode nos livrar daquilo. É só não ser pego por essas separações que o problema automaticamente desaparece.


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