Tempo

Originalmente postado em 21/01/2009

Editado em 10/08/2011

Três semanas antes

Mais uma vez no apartamento de Dea Martins. Desta vez ela não está. Tenho a sensação de que recalco um certo amozinho por esse Rio de Janeiro, que me causa antipatia. Ele não me dá bola. O rio que me leva para janeiro – desesperado pela aproximação do ano de 2009 – parece mais uma corredeira alucinada do que o riachinho que foi antes. Hoje é 30 de dezembro. Quase 31. Estrondos já acontecem lá fora. Todo mundo sorri e agradece a tudo. Agradece ao taxista, ao balconista, `a Iemanjá, ao tempo que melhora, ao raio que o parta. Tem que aproveitar, nem sempre é assim. Quase me esqueço: o que eu estou fazendo aqui, mesmo? Ah, me lembrei. Amanhã chega alguém que eu espero há meses.

Tento conter os fogos de artifício que pipocam em sinapses cerebrais e me concentrar na noite que precisa ser dormida. Se Dea estivesse aqui eu conseguiria expressar melhor o que quero dizer porque ela me inspira horrores. When she is around, as palavras escorrem pela ponta dos dedos e sapateiam sobre as letras do teclado. Mas desta vez, Dea leonina me abandonou e foi para a Lapinha com seus amigos malucos, me deixando uma chave de presente. Mandou eu me divertir, namorar e desligar o computador caso ele venha a ser usado – nessa ordem. Ela fez uma lista. Não apenas: espalhou bilhetinhos pela casa inteira. Parecem lamparinas, porque são amarelos. Amarelos post-it. São mini romances grudados pelas paredes do pequeno apartamento no Bairro Peixoto – o oásis de Copacabana. Me fazem rir. Um dos bilhetinhos ensina a usar o chuveiro. Ela diz: ‘ligue primeiro a quente. Quando o aquecedor começar a funcionar, tempere com a fria. Ou, se neste dia estiver muito calor, nem ligue a quente. Tome banho frio’. I love it.

O porta-retratos caiu de novo. De novo é separado. Insisto em escrever denovo junto porque acho que soa melhor. Minha mãe me corrigiu um dia desses. Voltando: Déa tem uma estante no quarto dela lotada de portas-retrato. Uma estante de instantes. São instantes congelados em molduras antigas, de diferentes cores e épocas. Fotos em preto-e-branco, coloridas, desgastadas, outras novas. Tem fotos nas paredes. Anjos, beijos gays, Paris na chuva. E tem esse porta-retrato que caiu sozinho pela terceira vez esta noite. E não está ventando neste quarto. Obviamente  fiquei com medo de não ser bem-vinda por qualquer entidade oculta que se esconda entre o que vejo e o que imagino.

Estou dando um jeito de entrar em pânico por alguma razão obscura e inexplicável. Assim ela permanence obscura e inexplicável. Mais fácil. O motivo real do meu medo é real demais para uma elaboração pacífica e compassiva que me permita pregar o olho até amanhã de manhã. Prefiro ter medo de coisas impossíveis do que assumir a verdade de certos acontecimentos iminentes que venham a provocar crises doloridas dentro de mim. Transformações reais. Vou continuar fugindo e fingindo mais um pouquinho. Tentando. Adorei minhas feições hoje no espelho. Estou tentando me distrair comigo. Com minha permanente nos cílios, que gracinha. Minhas unhas paris com renda. Qualquer futilidade besta que me distraia do fato de que em três semanas minha vida vai virar do avesso. Ele vai me deixar de novo.

Três Semanas Depois

Hoje Janeiro já chegou, o sol veio e foi umas várias vezes entre coqueiros na praia e prédios na cidade. Agora parece que foi embora de vez. Quando chove assim parece que ele nunca mais vai voltar. Chuva e choro. Ambos começam com ch. Cheiro também. Chegada começa com ch. Mas acho – acho também tem ch – acho que ‘partida’ deveria se chamar ‘chegada’ e vice-versa, seguindo a lógica das lágrimas que vão despencando de cima para baixo fazendo do ch uma onomatopéia perfeita para ilustrar a água que cai: chuá.

Ordinárias três semanas seriam estas não fosse por uma urgência inédita de sentir o ar entrando por absolutamente todos os centésimos de segundo dos meus poros. Isso faz a gente sentir a vida como ela realmente é.

Falei com a Dea uma vez apenas por telefone. Ela odiou a Lapinha. Não tinha nada para fazer. O chão era todo de terra, não tinha luz elétrica e choveu tanto que eles ficaram atolados no barro, fugindo de adolescentes hippies que descobriram que, entre os malucos da turma dela, tinha uma atriz  super famosa que todo mundo conhece. Sob a varanda da casa capenga que eles alugaram, conteciam serenatas para homenagear a atriz durante as madrugadas. Ainda bem que todos são bem humorados e a vida continua.

O ano começou agora, dia 20 de Janeiro. Três semanas atrás eu era a pessoa mais ansiosa do mundo – hoje sou a mais pensativa. A mais ansiosa hoje deve ser o Obama. Três semanas atrás ele deveria ser o mais pensativo. E espero que continue pensando.

Está vazio, quieto. Não digo abandonado porque é da minha própria casa que estou falando. Roupas sujas. A bagunça me olha. Os gatos estão jogados num canto, acostumados `a inconstância das coisas. Nem miam, de tanta preguiça.

Não sei o que vai acontecer e tenho medo. Sinto que uma mudança está próxima. Meu estômago me avisa que nada será como antes. Pergunto ao tarô e ele me devolve a Lua como resposta. É a mesma imagem que o inspirou a pintar e emoldurar um retrato dias atrás. Olho para a parede: sou eu de costas, na praia, com um pincel na mão e uma lua de Van Gogh no céu, como se eu mesma tivesse acabado de pintá-la.

Leio o significado da carta:

“Um tempo de mistério, assombro e terror. Estamos perdidos até para nós mesmos. Na profundeza das águas, um lagostim tem as garras estendidas. Atrevemo-nos a prosseguir? Ou essa monstruosa criatura estenderá as patas a fim de puxar-nos para trás? A lua a todos contempla – em silêncio. A Deusa da Lua na noite terrível é também a dadora de sonhos, a reveladora de mistérios ocultos. É realmente o lagostim nosso inimigo? Ou também luta para chegar `as torres distantes? Uma revelação… o terror se dissolve em assombro. A criatura já não parece ameaçadora. O lagostim oferece o dorso para o nosso passo. É agora ou nunca. Ousemos ou morramos”. (Jung e o Tarô. Nichols, Sallie)

 

Dois anos e meio depois

Não entendo ainda a carta da lua. Tenho medo dela. Cada vez menos medo, na verdade.

A Dea é que vem me visitar agora. Ela vem toda semana para São Paulo. Colhi essa amizade num pântano e ela é uma flor de Lotus para mim.

Ele voltou com malas. Viu o retrato pregado na parede e tentou se sentir em casa. Ganhou uma chave de presente, lavou a louça, cozinhou, roncou, reclamou dos cachorros que latem na vizinhança. Fez isso por um ano. Um dia, foi embora para sempre. Meu estômago doeu muito. Chs despencaram de mim, drenando minha água. Hoje não mais.

Uma transformação realmente ocorreu. E outra, e mais outra. Descobri que elas não acabam. Tenho me distraído menos com a cor do meu esmalte ou a curva dos cílios. Acho que perdi um pouco da capacidade de me enganar. Talvez por isso a carta da Lua não me assuste mais tanto. 

 

 

 

 

 

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5 Comentários on “Tempo”

  1. Caramba! Ótimo texto!
    Corajoso de sua parte postar um texto tão longo, na Era da Internet, onde a maioria está habituada aos máximos 140 caracteres. rs
    Lendo o seu post, vi você na primeira carta da lua. Você que já ultrapassou e superou suas barreiras, obstáculos e fatos cotidianos, agora os observa olhando para trás, e mirando a “lua“ como objetivo, foco.
    Não sei porque raios quis escrever tanta merda aqui, mas enfim. Abraço.

  2. Camila Depane disse:

    Estamos sujeitos a constantes vendavais, mesmo. Adorei este, Luisa.

  3. Samuel disse:

    Eu lembro desse texto, só não lembro o que comentei na época. Interessante o que você incluiu na edição. Não entendo nada de Tarô, mas analisando a carta em relação ao que você diz (“Acho que perdi um pouco da capacidade de me enganar”) é simples arriscar uma opinião: Repare que as gotas não estão caindo, mas subindo – a Lua está drenando as gotas coloridas de ilusão, a ilusão de dualidade está indo embora. Os dois animais estão com as línguas pra fora tentando lamber um pouco das gotas que estão indo. E repare que a água abaixo, que poderia insinuar um rio, simbolizando uma divisão, se revela na verdade um lago, não há divisão. E também os dois reinos acima, representados pelos castelos vermelho e azul, não estão separados, era uma ilusão, na verdade estão no mesmo plano, não há motivo para divergência alguma, ambos estão no mesmo barco da vida; e a figura abaixo, uma espécie de lagosta, não sei, está contemplando de dentro da água essa realização. E a Lua também representa as artes, a música, a poesia etc. Enfim, é uma carta mostrando pra você que a ilusão está indo embora mas que também o espaço para as coisas que você gosta se amplia. É algo extremamente positivo, não vejo nada de negativo relacionado a essa carta. 🙂 Uma vez uma astróloga, taróloga e não sei o que mais ‘…óloga’ (que comentei com você aquela vez) tirou as cartas sobre mim e sairam o Papa, o Tolo e o Sol. Isso é tudo que sei de Tarô, hehe.
    Bjs, linda!

    • Samuel, demorei mais de um ano para ler seu comentário. Incrível a sua interpretação da carta, obrigada. Um dos significados da Lua (princípio feminino) é a ligação com nossa porção inexplicável, instintiva, intuitiva. Sua leitura se utilizou desse canal, o mundo dos símbolos, dos sonhos. Adorei! Beijos


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