Leve como domingo de manhã

É muito bom acordar com calor e barulho de ventilador de teto. É quase de tarde e o cheiro de café chega até a cama onde estou deitada, suando. Cheiro de café, vozes misturadas de pessoas queridas e música ao fundo é uma das receitas da felicidade. Ela se senta `a mesa, pensativa, e solta:

– E aí? Como faz?

Não tenho a menor idéia do que responder. Não é receita de bolo, nem de felicidade que ela quer (agora) mas de um roteiro de cinema. Entendo o conteúdo da dúvida e compartilho a sensação de incapacidade. Frustrante ficar imobilizado. Quando se tem apenas sensação líquida dentro do peito e se quer transformar em algo concreto, físico, como um texto, um quadro, uma escultura ou qualquer coisa desse tipo… é preciso ter um recipiente, se não a água não toma uma forma.

– Eu não tenho a técnica. Mas vai fazendo, que uma hora sai. – é medíocre, mas é tudo o que eu tenho a dizer.

Jack White canta na minha orelha alguma coisa interessante e bonita, que eu tenho dificuldade para decifrar mentalmente o significado. Não consigo entender letras em inglês. São partes diferentes do cérebro: a que sente e a que entende. Nesse caso é o contrário: o líquido entra por osmose pelos meus sentidos e depois eu tento colocá-lo no meu recipiente mental para entender. No caso do Jack, e da grande maioria dos artistas norte-ameticanos, existe uma técnica. Porque ter o peito arrebatado, ok, é uma coisa universal. A segunda etapa é arranjar um recipiente pro líquido e a terceira é passar para alguém beber. Então o líquido perde a forma novamente, dentro do organismo de outra pessoa, que mata a sede. Aí sim houve comunicação. Ao contrário de quando te jogam um copo cheio de líquido na cara – ou seja, a arte ruim, meramente emocional e pouco estruturada. Deu pra entender? Era isso que eu devia ter dito pra ela. Não que isso fosse indicar um caminho técnico pra qualquer coisa, mas pelo menos ia rolar uma empatia. Empatia é sentir pelo outro. É bom ser compreendido, né? Gostoso. É tipo chegar num beco sem saída com uma companhia. A alegria precisa de companhia para se manifestar. A angústia também? Não sei.

No chão, minha amiga olha uma Polaroid e pergunta quem é o cara na foto. Ele é loiro, tem um sorriso bonito e está meio gordinho, mas tem o corpo bonito mesmo assim. A outra amiga dobra um lençol com elástico. Dobrar lençol com elástico é mini-angústia. White Stripes já mudou de faixa e a amiga do lençol canta junto, enquanto a primeira se levanta para ajudar na missão-lençol. Mini-alegria compartilhada. Acho que ela e o loiro da foto têm futuro. Eu digo isso porque entendo dessas coisas, vai por mim – tento.

Está muito sol lá fora e eu sinto um misto de preguiça e prazer. Estou suando mais, mesmo com o vento virando na minha direção de tempos em tempos. Parece uma eternidade quando ele vai para o outro lado. Estou mole, Parece que estou de férias. Eu realmente estou. É que quando não se tem uma rotina fixa e árdua, as férias não têm a mesma sensação que tiveram em outras épocas. Oh, well. Estamos aqui, desta vez com quase 28, e isso me assusta um pouco.

Eu queria tocar bateria, como a mina do White Stripes. Mas não se pode ter tudo. É isso que os 28 vem ensinar. Tem uma foice que passa pra cortar aquilo que a gente plantou até agora. O que foi plantado vai ser colhido, o que não foi, já era. Mas pode ser bom fechar o leque. `As vezes ter menos opções é libertador. Outro dia eu tinha 22 e escrevia num blog cor de rosa, com nome falso. Eu tinha big-angústias. Hoje só de vez em quando, e umas minis.

Ele volta do banheiro e pergunta o que eu estou fazendo. Digo que estou escrevendo. Ele beija meu pescoço e vai não sei pra onde. Eu gosto dele e quero encher ele de mordidas. Alegria compartilhada.

Umas uvas sofrem no calor, lá fora, tentando atrair passarinhos. Eles devem ter mais o que fazer, porque não vieram comer as uvas, nem hoje, nem ontem. Eu também não comeria essas uvas se eu fosse um passarinho. Mas eu não sou, e também não sou ela, a que dobra o lençol. Sinto um misto de admiração, saudade e inveja pela vida tranquila e equilibrada que ela escolheu ter. Amigos igualmente sem família se juntam ali, no jardim da uva, aos domingos a noite para celebrar a liberdade de não ter TV a cabo, nem barzinhos com Valet, nem outras opções que nos afastam da simplicidade deliciosa. Ah! Que coisa boa!

Resolvo me movimentar em direção a algo, porque fico aflita com tanto prazer vindo do nada. Coloco coisas numa sacola e saio para ver o mar e desfrutar mais um pouco dessa plenitude em contagem regressiva.

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15 Comentários on “Leve como domingo de manhã”

  1. David Rodrigues disse:

    Muito interessante e gostoso o que escreveu!

    Apenas como comentário quando fala “ter menos opções é libertador”, isto tem de ser visto como motivo de celebração e não de preocupação, em que quase todas as antigas moralidades estão claramente ultrapassadas, dessa forma vejo com uma aquilatada oportunidade para rediscutirmos e revitalizarmos as nossas próprias bases vitais.

    É a chance de entrarmos em contato com nós mesmos.

    Sucesso e Paz!

  2. Samuel disse:

    Excelente. A leitura foi como se eu estivesse assistindo a um filme passando em ‘minha mente’. Pude visualizar tudo, até mesmo sentir aquele prazer todo que você descreve, como somente um texto muito bem criado e escrito pode proporcionar. Perfeito. Keep it up! E pense seriamente em escrever para cinema, please.

    • Obrigada Samuel, vc sempre muito carinhoso nos seus comentários.
      bjs

      • Samuel disse:

        Ah, obrigado, linda. Vim aqui deixar um link de um vídeo p/ vc qnd vi sua resposta. É sempre um prazer, e uma honra, poder comentar os seus textos.

        Eis o vídeo:

        Achei engraçado, mas errada a atitude da moça. Imagina se eles realmente tinham alguém sequestrado lá com eles, e de repente discaram o número errado, por exemplo. Ela podia estar colocando uma vida de verdade em risco. Acho que o melhor a fazer em um lance desses seria responder certo e direto, curto e grosso: “Não tenho filha, ou isso é um trote ou ligaram errado. Passar bem. Tchau”. Né? O que você acha? Mas foi massa ela tirando uma da cara dos nóias, hehe.

        Bjs

  3. Letícia Lavigne disse:

    eu lembro desse blog cor de rosa. o que nao sabia era que voce tinha big angustias quando escrevia nele, não aparentava. mas agora que eu sei disso até me deu uma nostagia, saudade da luisa de antes e a luisa mulherão, evoluida e super ocupada de agora. não que o carinho tenta diminuido, jamais. pára com essa neura de idade, faz aula de bateria! só é tarde pra fazer algo quando você MORRE. hahahaha

    beijos,

    filhota

  4. oi disse:

    lindo! pra mim fica então a esperança de aos 28 tb encontrar essa tranqüilidade….

  5. Samuel disse:

    Ah, e o blog cor de rosa… Ah, o blog cor de rosa… ;] Amo vc

  6. Bililico disse:

    Que saudade de uma viagem dessas com as mulheres da minha vida…
    Bjoca
    ps.: bom demais o texto xuxu… concordo com o Samuel ali, parecia um filme…

  7. Slevin kelevra disse:

    Muito boa leitura, apesar de detestar calor e me trazer sensações ruins só de ler o começo, só isso já é um indicativo da qualidade da narrativa, que passa emoções através de coisas como cores e cheiros (que sequer podem ser percebidas através do texto escrito).

    Bem legal, entrei no blog só porque tava linkado na wikipedia pra conferir e me surpreendi, não esperava algo assim 😄

    Keep it up nigga

  8. sydney disse:

    …o título me lembrou… easy like a sunday morning.

  9. Surfista de enxurrada disse:

    Depois dessa…
    E não é que eu ouvi o barulho do mar que você saiu pra ver.Como eu chego lá?

  10. pedro_ishi disse:

    faz falta isso aqui.

  11. Luceni Hellebrandt disse:

    Tchê… amei o texto…simples e inteligente, como sempre achei o teu trabalho (o que deu pra acompanhar, como admiradora da banda, e depois, na tv).
    Parabéns, vou acompanhar melhor o blog!

    Abraço!


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