Fellini Natal

Se Almodóvar tivesse feito um roteiro em parceria com Fellini, o filme seria mais ou menos como foi o meu natal passado. Ainda não é 26 de dezembro, mas quase. Não vejo a hora. Só para poder dizer que não foi hoje.

Toda a família é louca, mas nunca achei que fosse tomar um soco no olho no dia do aniversário do Cristo. Achei que, desta vida, sairia ilesa desse tipo de agressão. Não foi na infância, não vai ser agora, certo? Certo. A minha mãe agarrou a agressora antes que ela me acertasse a fuça. Olé! Gracias, madre. Em paralelo `a realidade que me vem `a memória em flashes, roda em minha mente o filme fictício: roupas floridas, brincos dourados. Papel de parede. Uma montagem frenética alternaria o bate-boca com uma emocionante tourada. Ah, e claro, estaríamos todas gritando em espanhol.

Interna / Dia. E que dia. Todos comem, é natal. O pobre peru é esfaqueado na mesa, sem dó. Um dia isso aí fez gluglu e hoje está delicioso no meu prato. Nhami. Queria ser mais consciente e ter nojo, mas não é o caso. Já tenho isso com as vacas, ainda não atingi o nível peru / peixe / frango. A câmera em traveling se aproxima da mesa, onde seguro uma criança no colo. É tudo PB. Essa é a versão Fellini. Tudo parece pacífico, até alguém gritar em italiano e arrancar a criança do meu colo. Sem o menor motivo aparente, tudo se transforma num caos. Agressões verbais e bateção de portas. Eu choro muito.

Me olho no espelho algumas horas depois. Pareço uma Cinderella borrada. Toda arrumadinha, coitada, e despenteada. A maquiagem borrada do choro, o cabelo desgrenhado. Vestido rosa-claro com babados nas mangas. Quem iria esperar por isso vestida assim? Foi isso que a tirou do sério? Ou foram as escolhas que fiz ao longo da vida e que diferenciaram tanto o destino de duas personalidades tão parecidas? A frustração contida pode ser perigosa.

A locação é outra, é a casa da mãe, que salvou do soco, e que também teve o natal arruinado pela destemperança de outro personagem.

– Esqueci meus presentes debaixo da árvore, lamento.

Ficou tudo lá. Mas tem etiqueta. O destinatário vai receber. Sinto raiva e tento alquimizar. Pouco a pouco a enxaqueca vai passando – com a ajuda de dois comprimidos de nomes diferentes. Perdi algo precioso e raro: um dia perto das minhas raízes.

Meu pai chega, umas horas depois. Assistimos ao Jornal Nacional juntos, meio com cara de bunda. Tomo um sorvete que estava na geladeira, afinal, perdi a sobremesa do natal. Fico emocionada de lembrar que não assisto TV assim com meus pais há pelo menos cinco anos. Estamos juntos e um pouco abatidos. Mas estamos juntos mesmo assim. Nada foi tirado de mim. Nem a alegria, nem capacidade de perdoar. Está tudo aqui dentro, em algum lugar. Olé! Feliz natal.

Anúncios