Budapeste

Entre Buda e Peste tem um rio. Ele é largo e cheio de água. Barcos pairam entre pessoas que percorrem sua margem de bicicleta, de carro, andando. Sem a pressa de quem tem Wi-fi. De um lado, a parte antiga – de outro – a mais antiga ainda. Budapeste parou no tempo de alguma forma. Meninas vestidas de onça e sandálias transparentes denunciam que Madonna é a última referência estética para elas. Assim como o Rambo é para eles. Notas de Spice Girls vazam das boates. Que ano é esse? Quase esqueço. Parece que não anoitece nunca. Estou cansada de pedalar e buscar minha própria presença que me escapa como um peixe escorregadio.

O Danúbio não é azul. Nem um pouco azul. É escuro – entre o marrom e o preto – e corre rápido. Deve ter sido azul um dia. Na complexidade da equação entre velocidade e mundo, ele esqueceu de sua cor. Diluído em velozes correntes, um comunismo distante, um bombardeio ainda mais distante. Hoje é verão, é lua nova, é hora de começar de novo. Quem consegue levanta a mão. O Danúbio continua tentando.

Sinto que uma transformação está próxima. Sinto meu corpo se adaptando ao novo. A vida é inteligente. A própria vida em si já sabe o que fazer – E a gente pensando que tem controle sobre as coisas. Basta respirar.

Eu me renovo a cada momento.