Manias, Obsessões e outras Esquisitices

Originalmente postado em 29/01/2009 – 15:27 | 2476 visitas

Lembra quando você era criança e brincava de “não pode pisar na linha”? Legal, né? Bacana! Eu também gostava. O problema é que não parei de brincar disso. Estou com 25 anos e ainda não posso pisar na linha. Alguém esqueceu de me avisar que a brincadeira acabou. Acho que foi nas férias de janeiro de 1993, no condomínio da praia, logo que a mãe chamou para o jantar. Todo mundo foi comer e brincar de outra coisa e eu fiquei estagnada no tempo, sem perceber, com medo de perder o jogo ao longo de uma década.
 
Estou exagerando. Na verdade a linha não é mais uma questão. Posso provar: minha sala é de lajota de cerâmica. Elas são pequenas, menores que um pé humano. Seria impossível não pisar na linha pelo menos umas 15 vezes por dia. Acho que estou curada. O que na verdade me preocupou por mais tempo foi uma mania que eu mantive de pular depois do banho. A coisa era específica: entre o momento de desligar a água e me enrolar na toalha, eu tinha que dar 14 pulinhos. Não eram 15. Muito menos 13 (bate na madeira). Eram 14 exatos. 
 
Conheci um cara que lê todas as palavras ao contrário. Ele lê certo, e depois lê invertido. E é automático. Coitado, ele já tentou parar, mas é mais forte que ele. E sabe por que? Porque na aula de artes do colégio, um dia, a professora propôs que os alunos inventassem novos palíndromos. Palíndromos são palavras ou frases idênticas de trás para frente e vice-versa.
 
Ex:
ARARA
SOCORRAM-ME SUBI NO ÔNIBUS EM MARROCOS
(leia a frase de trás para frente)
 
Vinte anos mais tarde o cara continua lendo tudo ao contrário. Não é fácil.

Depois que conheci o tio Euri, pai do André, meu amigo, tive que parar de babaquice. O cara é bam-bam-bam mega ultra doctor psiquiatra master lá na gringa e cuida desse pessoal que não consegue mais viver por conta de manias que acabam tomando conta da vida. O próprio André, hoje psicólogo formado, me alertou: 
 
- Esse seu lance de pulinhos, de não pisar na linha… isso é sintoma de TOC.
- TOC?
- Transtorno Obsessivo Compulsivo.
- É de comer?
- Não, é uma doença. 
- Ave!
- É. E piora se não tratar. Mas todo mundo tem alguns sintomas, é normal. Você tem só uma coisinha ou outra que todo mundo tem. 
 
Normal? Eu não cheguei a contar para ele que se eu não usasse as meias do avesso algo de ruim poderia acontecer comigo. Será que todo mundo tem isso? E ter que cruzar os dedos sempre que passa um avião? Será que isso é normal também? I don’t think so.

Era lua cheia e eu tinha que voltar para casa antes da meia-noite, ou ia dar merda. Azar mesmo. Só de pensar na palavra “azar”, me deu azia. Aquilo estava indo longe demais. Tratei de me tratar. Sem médico, sem choradeira e sem precisar ir para os States. Esperei até a uma da manhã e tratei de pisar em todas as linhas que vi pela frente. Cheguei no meu prédio e entrei no elevador com o pé esquerdo. Tirei todas as notas de um dollar debaixo do colchão e, mesmo sendo sexta-feira, corri para o banho gelado, seguido de nenhum pulinho. Nenhum. Não foi fácil, mas acho que detonei os sintomas. De vez em quando eles tentam ressussitar, mas aí eu penso nos pacientes do tio Euri, no André, no Jack Nicholson naquele filme do cachorro e em mais um monte de gente que tem TOC de verdade. Eles somem.

E você? Qual é a sua mania esquisita?

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