O Mundo em Fatias


Depois da ponte tem um mundo fatiado. Antes da ponte, também.

Na paisagem mais famosa do mundo, diferentes raças e credos andam em paralelo. Linhas paralelas não se encontram, separam universos.

Essa é a capital do mundo vertical. Mundo pontudo e fálico, de silhuetas prontas para invadir. Prédios em forma de mísseis, ângulos de 90 graus, mentes rigidamente atadas a convenções.

Mentes calcificadas se enganam com o tempo.

O tempo tem ponto de fuga. Anda cada vez mais rápido, em progressão geométrica.

O tempo em rede permite que se mude o presente no presente. A horizontalidade do tempo é só uma idéia fixa.

Este mundo existiu primeiro na mente.

Mudar uma só mente é mais fácil do que mudar o mundo inteiro.

É mais realista. É mais possível, e mais honesto.

Ainda dá tempo.

Fotos: @LuMicheletti

Brooklin Bridge, NY agosto / 09.


Desenhos

2009

1993

Flamingos. 2009.

1991

2009


O Batizado do Bebê Pecador

Originalmente postado em 10/12/2008

Chegamos atrasados, eu e meu pai – que por coincidência ou não – somos os únicos da família que não compactuam com os dogmas da Santa Igreja Católica. Uma pequena capela, no sítio da família da mãe da criança, era rodeada por parentes, amigos, vizinhos e chegados. Estava muito sol. Escolhi um vestido simples, florido e até o joelho, para ninguém comentar nada. Nem feio, nem bonito. Prefiro parecer invisível nessas ocasiões, já que nunca sei como me comportar em casamentos, batizados, crismas e velórios. Sou um pouco ignorante em relação à cartilha de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas sei que ele foi um grande cara, e por isso, jamais se incomodaria com regras de cartilhas que foram inventadas depois de sua morte por pessoas que pensam representá-lo.

Todos espremidos ao redor de uma mesa retangular, que o padre insistia em chamar de altar, suavam incessantemente e disputavam os banquinhos de madeira com minhas tias-avós que subiam neles para achar um ângulo melhor para a foto. Milhares de fotos. A era digital chegou à geração das bisavós. É que o bebê é filho do meu primo e inaugurou a nova geração da família. Foi abençoado na testa com uma cruz de água de torneira que se transformou em água benta ao tocar o fundo do cálice de prata:

– E QUE DEUS NOSSO SENHOR ESTEJA PRESENTE NESTA ALMA, QUE POR SER HUMANA, CARREGA EM SI O INSTINTO PECADOR!

– … Como? Como ele pode generalizar toda a raça humana assim? – murmurei para minha mãe.

– Shhhhiu!

– QUE NÃO SEJA DE TODO CORROMPIDO PELOS MALES QUE ESTA VIDA HÁ DE COLOCAR EM SEU CAMINHO! EM NOME DO PAI, DO FILHO……

…Eu imaginava os ossinhos perdidos de Jesus Cristo dando cambalhotas de aflição nas areias quentes de alguma caverna erma do Oriente Médio… DO ESPÍRITO SANTO, AMÉM!

Todos em coro rezaram uma Ave-Maria. Preciso estudar essa reza qualquer dia. É bonita, mas muito complexa. Me confunde. Como assim “o senhor é convosco”? O que é isso exatamente? E é “bendito sois vós” ou “sois nós”? Tão cheia de armadilhas quanto o hino nacional. Enfim, o brado retumbante do padre ofuscava como raios fúlgidos o pobre bebê pecador, que suava em bicas, chiquérrimo, num colete de lã.

– Veio de carola, hoje? – minha prima, sarreando meu vestido comportado.

– Ela está tentando se livrar dos pecados – se adiantou meu pai.

– Me livrar dos pecados? Não. Valeu.

– Não fala isso pro seu pai! – exclamou o próprio. – Eu fui coroinha na Itália. Fiz três missas em latim.

– É mesmo? Bom, deixa eu ver…Ah, eu entrevistei o Marky Ramone em ingles, ao vivo, traduzindo tudo na hora. Páreo duro, hein?

– Shhhhhiu! – reprimiu minha mãe, que neste dia resolveu representar a extrema-direita.

As mensagens do reverendo entravam pelos poros da minha pele. Comecei a suar mais. Duas meninas cantavam em coro ao fundo, acompanhadas por um violão. A temperatura subia. Uma abelha tentava entrar na boca do padre, que falava em confirmar o batismo, em cordeiro de Deus e até nas próprias abelhas, tentando integrar seu discurso à situação constrangedora de se ter uma abelha rodeando a própria boca ao falar em público. Muito habilidoso.

Comecei a ficar com dor de cabeça e a pensar num cordeiro assado. Aquilo não acabava nunca. Muita fome. Trinta minutos, quarenta minutos, uma hora. Socorro. Meu pai cochichava com meu tio que dormia, minha mãe reprimia com shhhius e shhhius, minha prima zombava da minha roupa e as velhinhas clicavam tudo. No fundo, todos ali tinham uma válvula de escape. Até o bebê, que suando horrores para expurgar com antecedência seus primeiros pecados, se entretia com um graveto. Só me restou desmaiar.

Acordei num sofá. Pessoas me cercavam, inclusive o padre, que não estava mais de batina, mas `a paisana, segurando um prato de arroz com salada. Não foi nada, não foi nada.  Foi só o calor. Todos almoçavam e bebiam refrigerante ou vinho. Era disso que eu precisava. O bom e velho sangue de Cristo. Aleluia!