Meu Nome

Originalmente postado em 27/01/2009 – 10:08

Quando pequena, achava que não era nome de criança. Queria me chamar Adriana ou Camila. Não consegui convencer meus pais. Não fazia sentido mudar o nome de uma criança já taludinha. Aquilo me dava desespero. Não me conformava com a falta de opção. Se eu não gostasse da roupa, trocava. Como não pode trocar o nome? E ainda por cima, ele não desbota como a roupa. Tem que usar para sempre, sem experimentar, sem ver se combina. Não me parecia muito justo.


Hoje carrego meu nome em pelo menos sete pedaços de plástico que fazem peso em minha carteira. Dos importantes – como o RG, a carteira de habilitação e o cartão de crédito – aos menos imprescindíveis: carteirinhas de locadora de vídeo, cartões-fidelidade de farmácia, de companhia aérea, de livrarias.

Meu primeiro nome aparece todos os dias por alguns segundos na TV, sempre que eu começo um programa. E no final também, para indicar as marcas das roupas que usei.

Antes disso, passei anos ouvindo meu nome todos os dias de manhã cedo durante a chamada no colégio. Ainda com sono, escrevia a alcunha no cabeçalho das provas e, `a tarde, das lições de casa. Com seis anos, aprendi a escrevê-lo inteiro. Aos nove, errei na hora de assinar o passaporte. Hoje, ainda com medo de errar, assino cheques e contratos com as mesmas letras. Letras que preciso soletrar a cada novo encontro para que não errem mais uma vez. E sempre erram. Eu mesma erro, já me acostumei. Um nome impossível de ser escrito “de ouvido” dá mais trabalho. Por que fui cair com um nome difícil de escrever? Por que eu não me chamo Maria da Silva? Se minha personalidade fosse mais simples, o nome também seria?

Meu nome anda na boca dos que não o trocam por um apelido: amigos menos íntimos, pessoas próximas quando estão bravas comigo, recepcionistas, secretárias, colegas de trabalho e garçons com lista de espera na mão. 
Ouvi meu nome passando fugaz por muitos vocativos triviais. Incontáveis vezes, mas que não ocupam muito espaço na memória. Das poucas ocasiões em que foi dito com a cautela de quem vai dar uma notícia ruim, ou de quem espera ansioso por uma resposta, me lembro bem.

Talvez já tenha sido apagado da agenda de telefones daquela amiga antiga e dissolvido pela maré alta que invadiu a areia onde o escrevi semana passada. No peito do ex-namorado arrependido deve ter sido coberto por algum desenho maior ou substituído por outro nome. Em cimentos frescos e muros que pixei quando era moleca, ainda está por baixo da tinta branca, ou quem sabe, misturado com outros nomes agora.

Me lembro também de quando a ausência do nome doeu: na lista dos aprovados pela universidade pública, nos créditos de um filme que não incluiu minhas cenas e no testamento da minha avó milionária. Ah, essa última é mentira. Ela me incluiu no testamento. Mentira de novo, não tem avó milionária.

Meu nome foi escrito pela primeira vez na certidão de nascimento e será pela última em alguma lápide. Ou será que já existia antes, na cabeça de alguém que sonhava com um nome sem dono? Por onde será que meu nome vai ficar por mais tempo? Talvez ele vire nome de rua ou alameda depois que eu morrer e descobrirem que na verdade inventei alguma coisa muito importante para a humanidade, escondida dentro do meu quarto. Talvez não.

Não me lembro da primeira vez que ouvi meu nome. Também não me lembro da última. Mas me lembro de várias entre as duas: o mesmo som, que por convenção foi associado a mim, proferido por uma gama interminável de tons e intenções. O nome que dá nome a mim é o mesmo que ainda hoje soletro devagar quando estou sozinha. Sussurro como um mantra que ecoa sozinho. E continuo repetindo, mil vezes ao longo da vida, só para ver se um dia consigo finalmente me acostumar com ele. E comigo.

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18 Comentários on “Meu Nome”

  1. Daniel Miranda disse:

    Luisa, com todo respeito, seu nome é lindo… É o mesmo que o da minha sobrinha de dois anos, só que o nome dela é com Z. Mas tenho que ti confessar que com S é tão bonito quanto com Z. É d+ chamar alguém por esse nome… Ele soa e, principalmente, ressoa, tão bem para quem ouve…

    Continue escrevendo que eu continuarei lendo, ambos, compulsivamente… Ainda mais depois de saber que você escreveu e postou esse texto no dia do meu aniversário (27/01)…

    Bjos & Abs, sucesso sempre…

  2. pedro_ishi disse:

    eu achei bonito, o final principalmente.

    dá facil pra fazer uma comparacao entre se acostumar com o nome e com voce mesma. se a gente encarar nós mesmos como um se fosse um nome, que alguem, por motivos as vezes obscuros, simplesmente escolhe e colocam na gente e a gente simplesmente aceita, talvez seja menos dificil viver. a diferenca é que o ser tem “algumas” camadas a mais que um nome, e aceitar isso tudo, ao meu ver significa conhecer essas camadas.

    mas da parte de cá, pedro henrique em 84 tambem nao era muito da época. hoje até que voltou um pouco, mas embora eu tenha mudado, continuo pedro henrique de 84.

    p.s. minha irmã chama-se sati.
    – o quê, tati?
    – não professor, sati.
    – chat?
    – SATI!

  3. nicolas disse:

    ta bom o blog hein meu.
    beijo!

  4. Samuel disse:

    Hehe, eu me lembro bem desse post. “Não fazia sentido mudar o nome de uma criança já taludinha.” kkkk “Taludinha” é engraçado. Já tava um pouco acima do peso pra mudar o nome, né Luisa? kk Seu nome é bonito – Luisa Micheletti – perfeito. À altura da dona. ;] [<– olha aqui um exemplo espontâneo de como a crase pode fazer falta] Eu gosto do meu nome, Samuel Pelegrini, acho ok. O do meio já nem uso mesmo, então tá resolvido. kk Mas nada contra, é só pq três nomes eu acho muito, não daria certo.
    Bjs, e um bom final de semana [afinal, quinta já começa… heh]

  5. Samuel disse:

    PS: O seu é só Luisa Micheletti mesmo? Ou tem algum outro? Bjs

  6. Rafa disse:

    aaaaaai ai, luisa ❤

  7. Rayra D. disse:

    seu nome é bonito..sempre q eu ia escrever ele no site da mtv,em comunidades eu colocava com ”z” =& uhuashuausa
    até q eu começei a prestar atenção nas vinhetas do sap..e me toquei q era com ”s”

    achei estranho no começo pq a maioria é com ”s” ..hj em dia é ao contrario toda luisa q é com ”z” eu acho super estranho! =D

  8. beto disse:

    muito interessante

  9. Letícia Lavigne disse:

    “Se minha personalidade fosse mais simples, o nome também seria?” boa! seu nome é lindo. ele tá escrito em vários cadernos meus, acompanhados com “♥”.

  10. Letícia Lavigne disse:

    e com “que saudade da luisa.” hahahaha te amo!

  11. Eder A. disse:

    Seu nome é lindo!
    E já deve ter dado tempo de se acostumar com ele…
    Um beijo.

  12. Adrianinho seu fã disse:

    É !
    E qual seriam os nomes que você colocaria nos seus quadrigêmeos?

    mamãe porque vc me deu esse nome?
    mamãe porque vc me deu esse nome?
    mamãe porque vc me deu esse nome?
    mamãe porque vc me deu esse nome?

    já pensou rsrsrsrsrsrsrs

  13. Daline disse:

    Lú, não acredito q seu nome vá ser pela última vez escrito em uma lápide ou em uma rua. Talvez ele seja usado por alguma amiga sua pra dar nome a uma bebê pra se lembrar sempre de vc; ou então, em blogs, sendo citado por alguém que está com muitas saudades…
    Acho q vc ainda assim o subestimou. O nome Luisa significa muito pras pessoas que te conhecem, não só por vc, mas pelo carinho que sentem apenas ao lembrarem do seu nome. Pras pessoas que te conhecerem, esse nome vai sempre ser um belo nome que só merece ser dado a pessoas com um coração enorme como o seu! ^^

    Beijinhos!
    Dali

  14. Rafael disse:

    Seu nome é lindo, vc é linda, Ya!dog era lindo . e eu te amo.

  15. _Isabela disse:

    que texto gostoso, gente.

    tudo relacionado à você é lindo, fim.

    obrigada por me dar mais uma animadinha com esses textos mais bem escritos do mundo 🙂

  16. mariwatanabe disse:

    Quando li o texto pensei em algo que um professor meu disse de relance numa aula.

    Será que se a gente mudasse de nome a gente seria menos ou mais do que nós somos?
    Será que o nome determina tanto assim as nossas personalidades?

    🙂

    • Boa pergunta! Bom, segundo a numerologia, tudo pode mudar com uma só letra diferente! Mas segundo outros, a gente escolhe o nome mesmo antes de nascer, então vai saber! rs!
      Bom, eu pelo menos não teria soletrato tantas vezes que Luisa é com S, ou seja, minha vida seria mais fácil! rs!
      Bjs


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