Velocidade Relativa

Originalmente postado em 28/12/2008 – 14:47

O mundo está rápido demais.

Mas a gente só percebe a alta velocidade quando pára de andar rápido com ele.

Me lembrei de uma aula de física que tive no colégio. Como eu tinha dificuldade em física! Impressionante. As dificuldades nos atraem para aquilo que temos de desenvolver e lapidar em nós mesmos. Talvez por isso eu ainda insista em raciocinar e em criar paralelos entre fórmulas e a vida cotidiana. Regrinhas, leis e códigos que não faziam o menor sentido fora de um contexto educacional que eu achava um saco, mas que por alguma razão, ainda permanecem grudadas por baixo das explicações que eu tento dar para as coisas.

Entonces, depois de dez anos sem ter a menor necessidade de lembrar da fórmula da velocidade relativa, eis que ela surge saltitando serelepe ao redor da minha cabeça. Fui conferir para ver se ela existia mesmo. Era ela. Maldita. Me aparece sorrindo depois de onze anos foragida do meu campo consciente, como se nada fosse. Poderia ter vindo antes, não? De repente naquela prova de recuperação? Ou antes disso, assim eu não teria ficado de recuperação. Nem teria de escrevê-la debaixo da capinha da borracha.

VR = VA – VB.

Nunca pensei que fosse lembrar disso.

Demorei muito para entender esse conceito, mas hoje me parece simples. Na escola, o exemplo era assim: se um carro anda a 20km/h e você patina do lado dele a 10km/h, o carro, do seu ponto de vista, anda a 10 km/h.

Quando corremos junto com o mundo, o mundo parece lento, a aí queremos correr mais e mais. Na verdade todo mundo está correndo tão rápido e ao mesmo tempo, que perdemos a referência e achamos que estamos todos parados. E de repente acontece um surto, uma estafa, um cansaço coletivo e ninguém entende nada.

Hoje sentei na poltrona amarela que fica na sala. Amarela-limão. A poltrona que nunca me recebe porque nunca tenho tempo para ela. Ou para mim. Estou sempre apostando corrida com o mundo, que parece estar parado do meu lado. A poltrona também parece estar parada. Mas não está. Ela está envelhecendo, tomando poeira, sendo arranhada por dois gatos e aspirada duas vezes por semana. Nem a poltrona-limão está parada. Estamos envelhecendo juntas. A diferença é que ela se dá conta disso e eu não. Ela me observa andando de um lado para outro da casa, começando duzentas coisas ao mesmo tempo e concluindo poucas delas.

Hoje diminuí a velocidade e tentei ser John Malkovich com a poltrona amarela. Me transformei nela e fiquei me observando correndo e inundando o apartamento de pensamentos tão densos e velozes que deixavam os gatos loucos. Pensamentos sólidos como bolas de tênis quicando pelo chão e paredes, quebrando os vidros das janelas. Audíveis como palavras, mas palavras sem som. Zumbidos embaralhados que sempre me despertam sussurrando no meio da noite querendo concluir o que não foi concluido ao longo do dia. Me assisti rabiscando minha própria vida com brilhantes e efêmeras luzes de neon. Passei por mim como faróis vermelhos passam por um motorista imprudente. Semáforos cansados de tanta indiferença, que um dia resolvem não fornecer mais a mesma sorte de outros cruzamentos. Desta vez anunciam uma catástrofe nos próximos segundos. O motorista, apavorado pelo susto e pela iminência da morte  – tão veloz quanto seu carro – freia num pavor abrupto. Só assim ele volta para si. Com o coração na boca, desperta assustado em sua própria poltrona e respira. Desperta de um pesadelo praticamente real.

Diminuir a velocidade evita acidentes. Não podemos diminuir o tempo do mundo, mas podemos diminuir a nossa própria velocidade conscientemente.

Conversar com mais calma, observar o céu, uma flor ou uma poltrona amarela. Respirar mais profundamente, espreguiçar e bocejar mais vezes. Olhar mais nos olhos, amar mais, e principalmente: ouvir.

Aproveite as férias para perceber o seu próprio ritmo. Estou tentando fazer isso. Não me confundir com o mundo e evitar acidentes!

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18 Comentários on “Velocidade Relativa”

  1. Daniel Miranda disse:

    Parabéns Luisa, você tem escrito muito, tá D+ o blog… Ah, pena, eu não ter lido isso na época, em que vc escreveste, de fato. Até pelo momento em que eu vivia… bjos e abs…

    você é muito perceptiva há muitas coisas, que, em determinados momentos, passam batidos diantes dos nossos olhos… A poltrona de casa, o sofá, enfim, fazem parte do cotidiano…

  2. Gabriel disse:

    Ótimo texto, ótimo mesmo…

    É difícil mesmo prestar atenção nas coisas quando estamos rápido demais, tudo fica em “blur”. É a distração.

    continue fazendo textos assim Luisa (:

  3. Demétrius disse:

    Isso me lembrou de uma coisa. Não tem a ver diretamente com seu texto, mas de uma certa parte origina-se da física: http://pinballm.blogspot.com/2008/04/indefinio-do-amor.html Mas também sempre sofri muito com a física e essas teorias invisíveis e tão presentes.

    Parar é muito difícil. Não conseguimos simplesmente parar porque para parar, é necessário desaceleração. E quando paramos, simplesmente paramos, há o choque. O choque, a batida, pode ser bom ou ruim. Mas então, subitamente, não estamos em movimento. E estamos tão acostumados com o constante recorrer de imagens, com o sequencial de 24 fotogramas (ou 29,97 frames por segundo) e com as frequências de som e a urgência das informações que parar, o Parar, é ruim. O estado de repouso é o estado do vagabundo. Vivemos sob essa lógica. E nos movimentamos mais, não somos vagabundos. Nos movimentamos tanto que passam-se horas e dias e anos. E de maneira velada, passam também os bons e maus momentos, as memórias, as conquistas. Somos vítimas do tempo e da sociedade moderna. Somos vítimas e algozes porque inconscientemente, contribuímos para a fluência do ciclo. E sob essa cumplicidade, sofremos de olhos fechados, dormimos acordados, porque se pararmos, conseguimos crescer. Conseguimos olhar as pessoas, o mundo, os momentos, o alto e o baixo. Conseguimos então ser agentes de momentos nossos, verdadeiros e memoráveis. Conseguimos dessa forma ser simplesmente humanos e não diretores, produtores, ilustradores, artistas, empresários, estagiários, cantores ou garis.

    Somos algozes quando assumimos que o que fazemos somos nós. Somos algozes quando acreditamos que somos nossos ideais. Não somos nada além de humanos. Mas estamos todos sujeitos a tentar toda sorte de talentos e ideologias para ampliar essa condição. E isso é bom, contanto que faça-se a separação. Porque separando a pessoa da função conseguimos caminhar e sentir o chão sob nós. E quando menos se espera, conseguimos partir de passos inseguros para voos reais, em que a aceleração pode ser só uma consequência da gravidade porque estamos sendo sustentados pela nossa própria elevação.

    Enfim. Achei o texto excelente. Parabéns!

    E obrigado.

  4. Cortázar disse:

    Gosto tanto do que voce escreve, gosto tanto do que voce é. Queria te conhecer, mas o mundo nos fez distante. Mas o mundo, veloz, nos põe lado a lado.

  5. pedro_ishi disse:

    me transformar no ventilador que ventila a noite toda me preocupou durante a infancia. como poderia ficar ventilando uma noite de verão inteira sem que ninguem nem estivesse ali acordado pra olhar? coitado do ventilador!

    a gente enche a rotina com coisas pra fazer, as vezes, pq é dificil ficar só com a gente mesmo.

    a única constante é a inconstância = )

  6. leooliveira disse:

    O mundo esta rapido mesmo .
    Mais esta só rapido mesmo no contesto altodestrutivo do ser humano.
    ex.em uma reunião para decidir uma guerra uma invasão ou um genocidio é do dia pra noite , mais para descutir o futuro do planeta em uma reunião que parecia taõ simples se enrola por meses e não me surpreendia se por anos.
    perdão foi so um breve desabafo de um cara que quer um foturo um pouco melhor para os que virão.Pois so pensar no agora é um pensamento um pouco egoista.

    é tens rasão as vezes aceleramos como loucos apostando corrida com o mundo.
    mais a uma questão com o mundo ou com nois mesmos?
    será que não somos nois que tranformamos o mundo nesse manicomio gigantesco e não damos conta das verdadeiras belezas,dos amores e de que avida esta passando e nois não passamos de um mero espectatdor de uma pessa onde nois devemos ser as estrelas mais as curtinas muitas vezes acabam se feichando sem aumenos um aplauso se quer!
    vc escreve fantasticamente.

  7. Samuel disse:

    Eu sempre fui bom em física, naturalmente… Nunca fui reprovado, mas lembro que por uns dois anos cheguei a ficar em recuperação final porque não estudava mesmo. Nunca estudava, chegava lá e fazia a prova de prima, sem estudar nada, e ainda me dava bem. No final eu tirava só dez e passava.
    Revendo esse texto, me lembrei de duas coisas: “Correndo sem Parar” do Camisa – porque enquanto o povo tá nessa de desacelerar eu sigo pisando fundo (não acredito em acidentes) -, e da fórmula da viagem no tempo criada pelo Arnaldo Baptista, T = M >C (tempo igual a massa maior/acima que a velocidade da luz).
    Bjs

  8. Letícia disse:

    chorei e nem sei por que. vc faz falta. beijos!

  9. Xandre Lima disse:

    Lu, dá um jeito no layout do blog… Os textos longos com poucas imagens e comprimidos nesse trecho cinza, dificultam a leitura. :(( Se quiser uma ajuda de arquitetura de informação estamos aí. :)) Bjs.

  10. Felipe Delfim disse:

    Luisa sempre arrebentando em seus textos. Se não fosse por ti, não ia lembrar MESMO dessa tal fórmula. xD

    Vc tem uma visão diferenciada… o que a gente não percebe, geralmente, vc capta com uma maestria sem igual. =) Incrível!!

  11. Letícia Lavigne disse:

    posta mais, tan nan nan! 😀

  12. Samuel disse:

    kkkk toda hora que revejo a vitrine com o “feliz pascua” eu racho sozinho aqui feito tonto kkkkk

  13. Samuel disse:

    “feliz pascua pra todios! agora cum équiuuuu!” kkkk

  14. Adrianinho disse:

    E você como você está?

  15. Sydney disse:

    Me lembrei da corrida da tartaruga e da lebre (=

    kiss

  16. Emerson Mexx disse:

    Puxa, que texto legal! Nunca havia me ocorrido tanta informação quanto aos nossos próprios nomes… Muito bom o texto!


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